26.4.10

Rastros

Aprendi com o Pequeno Príncipe (e olha que nem sou miss) que cada um que passa em nossa vida leva um pouco de nós mesmos e deixa um pouco de si mesmo. Clap, clap, verdade pura.

O que ninguém costuma dizer é que se dar conta dos rastros deixados por quem passou é uma parte muito importante do seguir em frente. Olhar pra trás e saber exatamente o que cada um deixou em você é, no mínimo, um sinal de serenidade e uma prova irrefutável (e como é bom escrever "irrefutável" logo depois de "prova") de que o que passou realmente passou.

Explico. Sabe aquele amor sofrido, doído, que te fez de gato e sapato? Quer coisa melhor do que se dar conta de que daquela história sobrou apenas um tempero na cozinha ou uma trilha musical?

Não fossem os amores antigos, eu não escutaria Alanis, não teria descoberto as propriedades do alecrim, não conheceria os poderes de uma boa massagem nos pés, não desenvolveria uma enorme simpatia pela cor roxa nem muito menos teria me dado conta da importância de estar sempre preparado. Parecem besteiras sem tamanho, mas tudo isso faz parte de mim.

De repente, é como se eu fosse tão somente um amontoado de peças de outras pessoas, incluindo maneirismos, gírias próprias e figuras de linguagem. Amores, família, amigos. Chefes, colegas de classe. Astros do cinema, personagens da boa e da má literatura. Um quebra-cabeças de outras pessoas que formam a minha figura, de pecinha em pecinha alheia, criando um indivíduo - não necessariamente especial, mas único.

A questão, no entanto, é bem mais complexa do que parece. Das minhas vivências, por conta própria, apreendi muito mais do que os outros me deixaram. Há aquele tipo de aprendizado, conhecimento empírico, que só você mesmo pode perceber, sentir na pele e guardar pra depois. Não sou, portanto, somente um mero quebra-cabeças de peças furtadas dos outros. Sou eu quem as organiza, quem decide como é melhor ordená-las. Sou eu quem determina se o melhor é usar cola ou deixar uma ou outra pecinha solta para que, com sorte, se perca.

Aquilo que aprendemos com a nossa própria experiência ao nos relacionarmos com o mundo não se confunde com aquilo que, mesmo que não nos pareça importante, acaba ficando grudado em nós, como um tijolo que encontra a mistura ideal de cimento.

No primeiro grupo, estão as minhas conquistas, meus passos rumo ao crescimento pessoal, ao amadurecimento e todo esse blábláblá existencial que faz esgotar as prateleiras de autoajuda.

No segundo grupo, muito mais intrigante e que verdadeiramente me interessa, estão esses gostos, dizeres, gestos e sabores que pertenciam aos outros e que teimam em permanecer em nós como souvenirs. É nessa curiosa categoria em que insisto em incluir Alanis Morissette, a cor roxa e o alecrim, por exemplo.

O mais gostoso de tudo isso é perceber que, como esponjas, absorvemos e guardamos essas pequenas coisas todos os dias. A proposta então é tornar esse processo consciente, observar como essa apropriação (indébita ou não) acontece. Acho que pode ser bem divertido.

Dizem que os casais, com o tempo, ficam mais e mais parecidos, inclusive fisicamente. Quem sabe aí não esteja a chave para o sucesso do amor?

Essa é uma angústia antiga: OK, é lindo ficar com uma parte de cada um que passou, mas por que cargas d'água as pessoas simplesmente passam?

Estou cada vez mais convencido de que isso depende não só de amor ou de encantamento, mas também de uma escolha de verdade. Melhor do que dizer que cada pessoa que passa deixa uma parte de si, é poder se orgulhar de uma decisão afirmativa: essa aqui eu escolhi para não passar! Quero sugar tudo, por inteiro, até que ela faça completamente parte de mim.

O problema é que a gente apanha um bocado até descobrir isso. Infelizmente, o amor não é como Toddynho: não vem com instruções nem com canudinho a tiracolo.

9 pessoas deram palpites:

Maria disse...

Que bom que voltou a escrever e que está tudo bem com o coração.
Senti falta.
;)

Bruno Lima, disse...

Obrigado! Que bom ouvir isso!

Anônimo disse...

Eu ainda não sei pq vc insiste em dizer que preferimos ler páginas policiais.... muito melhor ouvir seus desabafos, declarações ou estórias.... tem um talento nato pra escrever!

AEZ disse...

Amigo, creo que si vinieran instrucciones todo sería 100% aburrido, insoportable.

En mi rompezabezas personal debo tener alguna pieza tuya. Y no, no es la ortodoncia.

Abrazo grande.

Anônimo disse...

Thanks :)
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Thais Aux disse...

Adorei o post. Aprendi a tocar bateria por causa de um ex (além das outras inúmeras coisas que aprendi com as pessoas que passaram pela minha vida).

Campanati disse...

O que será de mim que ficou? Kkkkk. Que pretensão. De vc ficou a saudade. A vonte de saber como seria se tivesse continuado. O gostinho bom de seriguela e as loucurinhas, ahhhhh, as loucurinhas. Adorei o texto. Escreve mais vai.

Aline disse...

Como é muuuito bom ler seus textos. Vc tem uma sensatez, uma facilidade de escrever... É tocante.
Eu gosto muito dessa troca em relacionamentos, seja amoroso ou amigos, de ter um pouquinho das pessoas queridas e saber que de alguma maneira propagamos o nosso jeito ou nosso gosto em alguém. É um pouco "imortal"...
E com ajuda do precioso tempo, fica mais fácil tornar este processo consciente.
Quanto aos relacionamentos, acho que daria mais trabalho se viessemos com manual de instrução, teria que atualizar a todo instante... mas concordo que não é só amor ou encantamento, e sim uma questão de escolha, de 2 escolhas...

Gardênia Vargas disse...

querido, nem as mais certas decisões são irrefutáveis... O mundo muda, nós mudamos, a todo tempo... e isso é o barato da vida. Sim, é o barato, mas as vezes sai bem caro aos nossos corações. Que venham mais alegrias, alecrins e sabedoria :)