22.7.09

Preservar-se

Os ambientalistas de plantão e o colega André Trigueiro que me desculpem, mas muito mais importante do que preservar a natureza, é preservar-se. Cada um cuidar de si é o primeiro passo para que todo mundo trate bem o planeta.

De qualquer forma, esse texto não pretende passear pela ecologia, a não ser que a harmonia psíquica possa ser considerada um ecossistema ameaçado. O tema é a autopreservação como valor quase extinto, como bioma em vias de desaparecer por completo.

Não sei se tem a ver com a chegada dos 30 (ou dos quase 31 anos), mas confesso que estou a cada dia mais rebelde. E entre as bandeiras da rebeldia balzaquiana está um sentimento incontrolável que algum desavisado poderia chamar de puro egoísmo.

Trata-se de uma certeza de que, primeiro, antes de tudo, preciso cuidar de mim. A minha barba precisa estar feita para que eu possa tratar do resto do mundo. Para isso, também é preciso ter me alimentado bem: nesse aspecto, beterrabas e cenouras ganham a relevância de assunto de segurança nacional. Em caso de despressurização, a própria companhia aérea ensina a colocar antes a máscara de oxigênio em si mesmo e só então ajudar outra pessoa.

Dirão os que já tem filhos que isso tudo é porque ainda não sou pai. Tá. Experimente não cuidar de si mesmo para ver quem é que vai cuidar do seu filho.

Será que a idade fez escorrer pelo ralo todo o meu senso de compaixão e solidariedade? Claro que não. O que veio com o tempo foi a descoberta de que é fundamental conhecer os próprios limites.

Não se trata de ser um sujeito limitado, sem calor na alma e sem perspectivas. Os limites individuais estão aí justamente para serem quebrados. Mas alto lá: quebrados por mim mesmo! O pulo do gato é saber quais são os limites para definir exatamente quais deles eu não quero ver ultrapassados pelo vizinho. É só conhecendo os meus limites que posso ser respeitado pelo outro.

A ideia não tem nada a ver com apologia da intransigência. Ceder é, sim, muito importante: é essencial para viver em sociedade, para amar e ser amado, mas é necessário aprender a ceder. Saber onde e quando ceder é mais uma daquelas difíceis lições que a escola não ensina.

Se o fundamental é estar bem consigo mesmo para poder amar o mundo, ser fiel a seus próprios princípios deveria ser a regra número um de qualquer indivíduo. O desafio é colocar isso em prática sem ser teimoso nem turrão. A campanha é esta mesma: autofidelidade já.

Fico me perguntando por que cargas d'água a gente se coloca em tantas enrascadas. Será que a gente precisa mesmo passar por tudo o que passa? Ou será que dá para fazer um filtro e despoluir um pouco? Por que é tão difícil dizer não, mesmo quando estamos diante daquele pedido mais inconveniente? Um sujeito folgado pede um absurdo e quem está do outro lado é obrigado a atender?

E os rancores, as frustrações? Será que não podemos simplesmente reciclar o desgosto? Por que sofremos tanto pelo que já sabemos que vai dar errado? Ou pelo que simplesmente dá errado, mas não depende nem nunca dependeu da gente? Se não havia nada que pudesse ser feito para evitar o desfecho trágico, por que sofrer tanto quando se consuma a tragédia?

O mundo está repleto de especialistas em sofrer porque o outro não fez o que cabia. Também há um amontoado de gente cujo maior medo é pronunciar a palavrinha não. Pedir desculpas e dizer "olha, desta vez não vai dar" não pode ser pior do que se afogar em chatices.

Devo admitir, passei a vida sendo um representante desse grupo. Mas estou aprendendo a me blindar. Tudo começa com pequenas coisas. São exercícios diários. Tá doente? Fique em casa. Fez errado? Volte e refaça. Não está afim? Avalie e, se aguentar o tranco, não faça _mas aprenda a também se comprometer quando preciso.

Desacelerar. Respirar. Repensar. Simplesmente não pensar.

Não se trata de fazer apenas o que dá na telha, sem concessões. Mas é chegada a hora de ser um pouco mais Alberto Caeiro. Um pouco mais zen. Um pouco mais nem. Um pouco mais além.

Não tem nada de revolucionário nisso... ou tem? O tempo das pessoas é agora. Os homens passam, as corporações ficam. Elas vão ficar de qualquer jeito. É por isso que o grande desafio está em fazer essa porção efêmera ser o mais maravilhosa possível.

Parece que ninguém se preocupa em agir para evitar sofrimentos desnecessários. Pois bem, a estratégia agora é sofrer apenas com o que for inevitável.

Pela lógica, isso deve nos deixar com muito mais tempo livre para aproveitar o que realmente importa na vida: o amor, a família, os amigos. À primeira vista, pode parecer uma enorme incoerência, mas só com uma certa dose de individualismo é possível ter uma vida cercada de calor humano. Tá aí, esse era o superaquecimento global que eu queria ver.

A erosão dos sentimentos é um processo bem mais rápido do que parece. Os amores, desprotegidos e desmatados, podem se desintegrar na rotina.

Faça sua parte. Não sacrifique sua alma.

Preserve a sua natureza.