25.3.09

Tinha uma amora no meio do caminho

Quantos segredos moram naquilo que não é dito? Quantos detalhes se escondem no que não é percebido?

Na esquina da minha casa, mora, lânguida e faceira, sem nunca haver se escondido de mim nem de ninguém, uma amoreira. Só fui percebê-la há poucos dias, ao encontrar a esquina repleta de amoras espalhadas pelo chão.

Já tinha notado que a esquina vivia cheia de inúmeros pontinhos pretos. Por fim notei que não eram assim tão pretos, estavam mais puxados para o violeta. E, bom, também que não eram bem pontinhos, pareciam mais amoras mesmo.

Enfim, foi uma gostosa surpresa descobrir que era isso mesmo. Eram amoras!

Roubei uma da árvore. Comi. Estava meio doce, meio azeda - bah, gosto de amora.

E segui para o trabalho pensando como é que algo está tão perto e demoramos a perceber. A coisa está ali e não damos nada por ela.

Anteontem uma bala veio se perder a duas quadras da minha casa. A duas quadras da amoreira. Essa loucura do Rio, guerra de traficantes.

Longe de mim querer comparar balas de fuzil com amoras, mas devo dizer que andam me interessando bem mais as amoras.

As balas, impossível não tomar conhecimento delas. Fazem estrondo. A imprensa toda grita e indica. Me preocupo com elas, claro. Quem não se preocupa?

O que falta é quem se preocupe com as amoras! Não que elas se importem, não mesmo. Mas porque desse jeito ficamos somente com a porção ruim do mundo, com as atenções totalmente voltadas para a rotina, para o mesmo cotidiano de todo dia e, de vez em quando, para alguma tragédia que quebra a mesmice, como uma bala perdida.

Não quero amoras nas primeiras páginas dos jornais nem ouso sugerir que a imprensa busque apenas boas notícias. O IG até tentou fazer um dia só de "notícias positivas" no portal, mas era justamente 11 de Setembro de 2001 e foi tudo para o beleléu.

O melhor das amoras é que elas não querem mídia. Elas são simples e nessa simplicidade se esconde sua doçura. Elas só desejam ser notadas - e degustadas - por aqueles que já estão por perto e seguem confundindo amoras roxas com pontinhos pretos.

Quantos gestos de amor deixamos de notar todos os dias? Quanto do mundo e dos outros eu mesmo deixo de perceber? E quanto de mim mesmo deixa de ser percebido?

A única certeza é que, além de balas, não faltam amoras perdidas. Amoras e amores.

10 comentários:

Gabriel Fonseca... disse...

oi querido! morei ali uns 7 anos e tb nunca reparei! :-) adorei! to tentando fazer o meu blog, mas to apanhando um pouco... enfim, alguma hora sai... e em breve. abraço saudoso. G

Janes Rocha disse...

Bruno, se vc "acordar" vai passar a "ver" um monte de coisas que não via. Entre aspas porque quero dizer que geralmente não prestamos atenção nas coisas pequenas que nos rodeiam (principalmente nós jornalistas). Este tem sido meu exercício diário nos últimos meses e te digo: siga em frente, vc vai ver/ouvir/sentir maravilhas que antes passavam batido...bjs

Maria disse...

E que a vida seja feita de amoras... sempre visíveis e percebidas!
rsrsrs
Abraços.

AEZ disse...

Amigo: más que rosa, te pusiste morado con este posteo... ¿Estás enaMORADO? ¿O ese día te levantaste un poquito pelotudo? Se te extraña, che. A Río también. Abrazo grande.

Élvio disse...

Bruno.
Este texto tá amora é mt foda. Amoreiras são bençãos, por isso o Rio me surpreende, e mesmo amando as minhas Minas Gerais de onde vim, as surpresas de uma amoreira no meio da metrópole enchem de poema um pé de notícia!

Anônimo disse...

Bruno, to querendo falar contigo.
Se puder me manda um e-mail.

Leo: renacs@hotmail.co.uk

Ingrid Silva disse...

(...)A única certeza é que, além de balas, não faltam amoras perdidas. Amoras e amores.

Final perfeito, adorei...
Ah, e eu adoro amoras também.

Parabéns pelo blog.

Abraços.

http://ingdsilva.blogspot.com/

Luciano ALmeida disse...

Ja tinha lido antes, percebido antes...mas nem sempre dizemos o que vemos, o que sentimos...adorei o final, vc é 10 cara...abração

Bruna Antunes disse...

Bruno que bonito seu texto sobre amoras,adorei a analogia que você fez...suas palavras são simples e belas.

#)

Amora silvestre

Campanati disse...

É exatamente isso que quero, ou melhor não quero, mídia, não quero platéia. Quero simplicidade e doçura. Adorei. Brigado.