10.3.09

Ensaio sobre o estrabismo

As aparências encantam. Mesmo que não sejam lá as "boas aparências" exigidas pelas lentes hollywoodianas ou pelos anúncios de emprego. O que importa é agradar o freguês.

Dizer que quem ama o feio bonito lhe parece é das coisas mais preconceituosas do mundo. Primeiro porque pressupõe que exista uma beleza correta e perfeita. Não há; tudo não passa de ponto de vista.

O que pode ser supersexy pra mim pode ser a coisa mais mais corta-clima pra você. E, depois, porque o mais bonito é amar alguém por inteiro. O ideal não é amar alguém apesar de seus defeitos, o paraíso de fato é amar alguém justamente por causa de seus defeitos.

E eu me arrisco a dizer, virginiano que sou, que esse é o ponto máximo do amor. Porque o virginiano, mais do que todos, está sempre tentando melhorar o mundo. OK, você pode dizer: "Que cara chato, mala, não deixa passar nada, sempre vê o lado negativo das coisas."

Mas eu garanto que não é nada disso. Eu, por exemplo, sou um otimista: se falo que falta algo, é porque acredito no mundo e o amo tanto que acho que vale a pena gastar saliva para melhorá-lo.

- "Ah, eu te amo! Você tem os defeitos que eu sempre sonhei!"

Imagine. Essa, sim, é a perfeição absoluta. A certeza, serena, de que aqueles defeitos você pode suportar. Trata-se de uma garantia de amor incondicional e duradouro.

Pois bem, outro dia um amigo me revelou uma predileção pelo estrabismo. Um fetichezinho besta. "Não pode ser uma coisa exagerada", explicou ele. Mas um certo grau de estrabismo lhe atrai. É fofo. Um dentinho torto também serve, complementou.

OK, aceitemos, pode também ser um dentinho torto. Se possível, encavalado. Mas só um. Não serve a arcada inteira.

O amigo é exigente. E o controle de qualidade passa, veja só, até pela feiura. Doses homeopáticas de feiura sob medida - e ele chama isso de "charme".

Ah, mas que mal há nisso? O que importa é olhar pra alguém e sentir essa certeza - estranha e doce - de que tudo está exatamente no seu devido lugar.

Fico pensando se não é por isso que eu amo tanto o Rio. E justamente porque amo, vejo (e aponto) tão virginianamente os defeitos da cidade. Me perguntaram outro dia: "Você gosta mesmo do Rio?! Você só fala mal da cidade!"

Ai, Deus, como explicar que, se não amasse, não falaria. Não reclamaria. Não perderia o meu tempo tentando entender, tentando sugerir melhorias. O mesmo problema eu tenho no amor. No amor a dois, quero dizer. Eu sempre enxergo os cílios fora do lugar, as roupas amassadas, as unhas malfeitas. E amo apesar disso, amo também por isso. Talvez exatamente por isso.

Um ou outro pode dizer que o estrábico sou eu. Sou eu quem tem a visão turva, que enxergo torto, vendo problema em todo lado. Mas "ojo", como dizem os argentinos, não são problemas!

Se para quem ouve pode parecer uma simples crítica, para mim não passa de uma pedrinha a mais pelo caminho, um tijolo a mais na construção. Sinal de que cuido, me importo, amo. Sinal de que me interesso e de que presto atenção em todos os detalhes, em tudo o que diz respeito ao ser ou ao objeto amado.

Tá. Eu reconheço que pode parecer uma maneira bastante curiosa de amar. Mas esse é um tipo de amor intenso e real, não uma criação de pura fantasia. Um amor pé no chão. Seja um chão de estrelas, de pedrinhas de brilhante, de barro, de areia fina, de mijo pelas ruas, não importa.

Um amor verdadeiro é um pé de moleque, não o doce, mas o do menino que não tem medo de pisar onde quer que seja preciso. Quer coisa mais linda do que avistar uma poça d'água no caminho, encará-la, e depois pisar bem no meio dela, de propósito, por puro prazer?

Dar um passo por impulso pode ser bonito. Mas saltar mesmo depois de analisar todos os riscos, e defeitos, e problemas, e possibilidades... ah, isso sim merece admiração!

Meu plano é este: olho sempre por onde piso e sigo em frente quando vale a pena.

Se acho que vale a pena, vou pensando em como melhorar o caminho, botar umas flores por aqui, dar uma capinada por ali. Hahaha. Mas são detalhes, pequenos charmes, pois o caminho já foi escolhido. O passo é firme. E não imagino um pé melhor para terminar uma notícia.

5 comentários:

Maria disse...

menino! Desde novembro espero um novo texto... como vale a pena esperar. Talentosíssimo como sempre. Descobri seu blog muito por acaso, e gamei na hora, com todos os estrabismos permitidos.
Obrigada pelo deleite.
Maria.

Janes disse...

Bruninho, muito legal seu ensaio. Não deixe que a TV diminua nunca sua capacidade de escrever. Aproveito pra mandar um recado: me escreve um e-mail porque eu fiz um "despelote" na minha conta gmail e perdi metade da minha agenda, entre eles voce. bjs

Élvio disse...

Bruno,
Estava rodando por ai e cai no seu blog. Gostei do seu texto. Sei que é um comentário anonimo, nesse mar da internet. Eu gosto de ler blogs por aí, e quando leio mais de dois posts, é pq a coisa é boa. E o anonimato me deixa até ser besta: eu sou um leitor exigente e crítico. Valeu para favoritar aqui, e de vez em quando dar uma futicada.
Cheguei a vc pelo Orkut, aquela coisa de rastro que fica, entao a gente vai ver o que tem de interessante além de uma foto. No seu caso tem ESCRITURA. Isso é mt bom. Um abraço e sucesso na empreitada.
Élvio.

Luciano ALmeida disse...

Virginiano, virtuoso, vertiginoso esse texto...Concordo com o que disse sobre "gosto, por isso falo mal"...é bem isso, só quem importa, merece atenção..meus cílios sempre ficam tortos, enroscados, rs..

Mariana disse...
Este comentário foi removido pelo autor.