21.10.08

A voz do morro

"Eu sou o samba..." Calma, calma, não é verso de Zé Keti - é discurso de político. 

Enquanto os candidatos à prefeitura de São Paulo discutem o passado (administrativo e sexual) um do outro, aqui no Rio algo bem mais importante é saber quem está com o samba.

Propaganda de Fernando Gabeira, cujo jingle aparece nas versões rap ou pagode, mostra a marrom Alcione. "O mundo do samba está com Gabeira!", diz a cantora. 

A campanha do outro candidato, Eduardo Paes, discorda. Mostra Nelson Sargento, Dudu Nobre, Dicró, Delcio Carvalho, Noca da Portela e Tia Doca. E o jingle do peemedebista é cantado por Preto Jóia, puxador de samba.

Músico por músico, a propaganda de Gabeira tem Caetano Veloso, Adriana Calcanhotto, Paula Toller, Fernanda Abreu, Moraes Moreira, Luiz Melodia, João Bosco, Paulinho Moska, Frejat, Edson Cordeiro... tem até MC Marcinho. E também duas divas da delicadeza do samba: Teresa Cristina e Mart'nália. De novo, lembro: Hollywood é aqui. É tanta nota e tanto timbre que, no fim, a surpresa maior não vai ser quem vai ganhar o segundo turno; o que todo mundo quer saber é qual candidato vai lançar o melhor CD.

O apoio do "samba" se tornou muito mais importante depois da escorregada de Gabeira, que disse em uma conversa ao telefone que foi ouvida por jornalistas que uma vereadora tucana campeã de votos no Rio tinha uma "visão suburbana" sobre um determinado tema.

O candidato pediu desculpas públicas à vereadora, mas reclamou sobretudo de invasão de privacidade. Ficou chovendo no molhado. O nome disso, meu caro, é interesse público. O importante é saber o que o candidato é de verdade e não conhecer somente o personagem que ele quer interpretar.

Paes, de seu lado, igualmente filhote da zona sul, aproveitou o deslize para se mostrar como representante da periferia. Raciocínio simples: se o outro falou mal de você, vote em mim, mesmo que eu não faça nada de bom pra você. "Suburbano com orgulho vota Paes." A idéia é colar de vez em Gabeira o rótulo de preconceituoso e pouco conhecedor das áreas menos favorecidas da Cidade Maravilhosa. 

Gabeira reage com a voz mole que lembra Ronaldo Ésper. Fala de campanha limpa, sem ataques, sem "dividir o Rio". Seu jingle agora cita com destaque bairros da zona norte e da zona oeste carioca. Andaraí! Grajaú! Bangu!

A campanha do PV também mostra Fernanda Abreu criticando a rixa histórica existente entre o morro e o asfalto e pintando um Gabeira conciliador e contra o preconceito. 

Ocorre que a busca pelos sambistas na reta final da campanha não passa de puro preconceito. O samba, que fala no coração do povo, vira a língua dos candidatos e do marqueteiros da zona sul, área nobre da cidade, para conversar com o subúrbio. É como se alguém tirasse da manga a última carta para ser compreendido pela boiada. "É, vamos ter de apelar para o samba!"  

O samba, voz legítima do morro, transvestido de voz para falar com o morro, fica forçado, perde o charme. É a mesma falsidade do candidato que toma um cafezinho a cada esquina e a mesma falta de limite que leva o político a perder a noção de tudo, chegando ao extremo de cumprimentar até manequim de loja, como fez a paulistana Marta. 

Sempre achei ridículo usar símbolos nacionais e regionais para angariar a simpatia do eleitor. FHC, por exemplo, comeu buchada de bode e montou um jegue em 94, quem não se lembra? Geraldo Alckmin, em 2006, repetiu o gesto: comeu buchada e montou um jegue na Paraíba. Depois, se disse "chicleteiro". Estava onde? Na Bahia, claro. 

Deus do céu, tudo tão forçado! Alguém imagina Alckmin pulando atrás do trio elétrico?

Fico pensando como fica a cabeça de quem mora na zona norte do Rio, é chamado de "paraíba" e tem, sim, sua escola de samba como a coisa mais importante do mundo.

Quando vejo Gabeira e Paes tentando se aproximar do "povo" com o intermédio dos sambistas, o que me vem à mente é a constrangedora imagem do Príncipe Charles, da Inglaterra, tentando sambar em sua visita ao Brasil.


Diga-me com quem sambas e te direi quem és.



2 comentários:

Muller disse...

eheheh estou em busta de post politicos e achei o seu. É uma otica curiosa. Vc não falou de Mart´nália e Teresa Cristina (ainda não foi ao ar) que tambem estão com Gabeira.

Acho valido Gabeira botar musicas, horario politico é MUITO chato, o de Gabeira é legal de ver. Mais do que musicas ele tem apoio dessas pessoas. Caetano é mais que um cantor é uma pessoa seria, muito ligado a varios temas relevantes. Assim como Marina Silva, da credibilidade ver essas pessoas.

Aproveito para deixar meu post politico:
Motivos para votar Gabeira

Anônimo disse...

Brunão,
Vale lembrar que o Alckmin também tomou café com sal no Rio...
Beijinhos