10.8.08

Iraci é a maior piranha do bairro


Tirei dinheiro do caixa eletrônico e assim me chegou a informação, escrita em uma nota de R$ 10 (com arara e tudo): "Iraci é a maior piranha do Bairro S. Sebastião."

A nota saiu do caixa exatamente assim (foto), mensagem viradinha pra mim. Oferecidíssima.

Claro que dei risada no primeiro momento. Olhei ao redor pra ver se alguém compartilhava do meu sorriso, mas não, a fila do caixa queria andar. E a fila andou.

Iraci, pobre Iraci. Que mal deve ter feito para merecer tamanha afronta?

"Não deve ser uma piranha qualquer", me disse um conhecido. Não deve ser mesmo, fiquei pensando, pois pra estar em uma nota de dez reais é preciso mesmo muita animação. É preciso disposição para passar pelas mãos de todo mundo! Agüentar o movimento de uma nota de cem é fácil, quero ver é manter o rebolado mudando de mão de cinco em cinco minutos.

Tentei passá-la adiante logo nos primeiros dias, mas a idéia de fotografar a nota e escrever uma besteira qualquer sobre ela me fez ter certos cuidados. Ela ficava num cantinho específico do bolso, para que eu não cometesse o lamentável engano de trocá-la por uma guloseima sem importância.

Duas ou três vezes me peguei no pulo, prestes a entregá-la de mão beijada, mas felizmente me dei conta e pude evitar o pior. Uma vez saí de casa de madrugada para sacar dinheiro só para não ter de me separar dela. Iraci havia se apegado a mim. Ou eu a ela.

Coisa de adolescente se apaixonar por piranha. Não que eu já tenha provado; a verdade é que sexo pago é contra os meus princípios, não os da ética, mas os do tesão mesmo. Boa parte da delícia da transa está justamente em a outra pessoa QUERER estar com você! É por isso que acho que pagar por sexo é a coisa mais sem graça do mundo _ainda mais num mundo em que sexo gostoso e voluntário não é propriamente difícil de encontrar.

Enfim, mas a Iraci, claro, não deve ser uma puta profissional. Bom, pode até ser, na acepção paulistana, em que uma médica, dentista ou advogada pode ser uma puta profissional. É que simplesmente não faria sentido jogar na lama (ou no dinheiro, que é bem mais sujo que a lama) o nome de alguém que fosse prostituta de verdade.

A história me cheira a injúria das mais baixas, injúria mesmo, só pra ofender, sem exceção da verdade, seja ela mulher fácil ou não. Mas não façamos juízo de valor.

Fico pensando se foi coisa de homem. O cara foi lá, comeu a gostosa da Iraci, bebeu umas biritas e mandou essa. Ou de marido corno, traído pela mesma Iraci que julgava pacata, a quem jurou fidelidade eterna e, bom, teve aquela vez depois do expediente, mas isso não vem ao caso e não justifica a vadia sair por aí dando pra todo mundo. Ainda mais pintada de carmim!

Se bem que pode ter sido coisa de mulher. De vizinha invejosa. Da mulher que se revolta contra a amante fogosa do marido: "Ela vai ver só, eu boto aqui o nome dessa sem-vergonha, e todo mundo vai saber". Só que, além de ser feio danificar nosso querido Real, se a idéia é prejudicar alguém, deve ser mais útil amarrar o nome da figura na boca do sapo.

É que, depois de circular e circular, o bairro São Sebastião ficou pequeno pra ela. No Jardim Botânico, Rio de Janeiro, onde ela veio toda saidinha pro meu lado, ninguém saberia medir sua fama. Ela era apenas mais uma. E, sendo assim, a ofensa perde o sentido.

Na nota, Iraci ganhou a liberdade que talvez não tivesse na vidinha besta de todo dia. Ganhou o mundo, viajou pelas mãos de homens (e mulheres, por que não?) de diferentes classes e estilos. A própria mensagem dá conta dessa limitação. Ela é sim, a maior das piranhas, mas do bairro, daquele contexto fechado. Na nota, não, ela passou a poder ser a piranha de todo mundo!

Vale dizer que o bairro São Sebastião pode nem ser no Rio! A Iraci pode ter viajado, toda faceira, de Porto Alegre para cá. Ou quem sabe de Cuiabá. De Maceió, talvez. Anápolis (GO), Criciúma (SC), Poços de Caldas (MG) também possuem bairros com esse nome. Isso pra ficarmos só nas primeiras páginas da busca do Google.

Não chego ao nível de loucura de sugerir que Iraci deva estar agradecida por estar tão livre e viajada. Até porque quem pretendia ofender a honra da moça julgou que ela só valia isso, dez reais, o que, hoje em dia, é o mesmo que nada. O que é que se compra com dez reais? Bom, no máximo uma Iraci e olhe lá.

Isso me leva a um questionamento pouco oportuno: por onde andam as notas de dez reais de plástico? Está cada vez mais raro dar de cara com uma. Vai ver é mais fácil a Iraci ir parar aí na sua mão que você receber outra vez aquela estranha nota de plástico.

Pois outro dia peguei um táxi com um sujeito falastrão, que veio me contando todo o tempo sobre suas aventuras sexuais. Mas o que trouxe verossimilhança aos "causos" foi justamente o taxista admitir que, no ponto (de táxi) a que pertencia, ele tinha a vida sexual mais monótona. Meio do trajeto, e toca o celular do motorista. Ele atende e solta uma gargalhada. Do outro lado da linha, assim me relatou o taxista em seguida, estava um colega de praça que tinha terminado uma corrida mais precisamente na cama da cliente.

Para explicar o episódio, o taxista soltou um discurso, digamos, praticamente feminista:

- É uma dessas peruas da Barra da Tijuca, cheia da nota. E casada! O marido só pensa em trabalhar, trabalhar. Enche os burros de dinheiro, mas não comparece. E a mulher tá certa. Tem que dar mesmo. Trepar é bom. Por que é que ela vai se privar? Gente, mulher também tem direito de gozar. E a mulherada tá fazendo o quê? Tá dando!

Achei que ele merecia a Iraci. Paguei com ela o táxi.

E Iraci, cada vez mais rodada, seguiu seu destino.

15 comentários:

Thiago disse...

engracado! adorei o repasse final! vou me tornar assíduo! parabéns! abracao. Thiago.

joão disse...

:) muito bom

Dolly disse...

Analisando friamente a situação, acredito em três possibilidades: ou foi um corno (não precisa nem ser marido), ou uma mulher próxima despeitada, ou um cara ruim de cama ou de p... pequeno e que a Iraci contou pra todo mundo.
O que mais poderia fazer Iraci para ser condenada a circular por aí com o letreiro de piranha na testa?

Iraci, Tereza, Lúcia... disse...

Prosopopéia interessante... E o final mostra a vida como ela é: a mulher segue o seu destino e o homem segue achando que foi ele que deixou. Ai, como a gente se diverte! É sensacional levar a fama e deitar na cama.

Daniel Gruber disse...

Muito interessante a idéia do blog, e muito boa a leveza e o humor dos textos.

Linkei o site ao meu blog, dê uma uma passadinha lá se tiver um tempo: www.gazetademacondo.blogspot.com

ialinecsilva disse...

Adorei!
E seja quem foi o escritor, corno, ou a chifruda, quase conseguiu o que queria, se a Iraci não é a maior pelo menos agora a mais famosa!

Paulo Mario Martins disse...

Sensacional!
O que você está fazendo no hardnews?! Vá derrubar o Veríssimo, rapaz!

Ilis disse...

Muito bom! :)
E meu palpite é que foi coisa de mulher.
Bj!

AEZ disse...

¡Che, amigo, actualizá el blog! Un abrazo grande.

Ciça disse...

genial!!! já repassei para os amigos.

Leandro Wirz disse...

Excelente texto! Navegando por aí, visite mardecoisa.blogspot.com

babi disse...

11 pessoas comentaram, agora somos 12...
Iraci.
Soube a hora certinha de entregar a nota para o taxista. Afinal Iraci era a mulher do taxista.
Beijocas babi

kamila disse...

um homem que faz umz defamação desta com uma mulhe mereçe ser processado por danos morais

Anônimo disse...

um homem que faz umz defamação desta com uma mulhe mereçe ser processado por danos morais

I-Félix disse...

Tema de hj: Assassindando a Língua Portuguesa
uma pessoa que deixa um comentário desses "um homem que faz umz defamação desta com uma mulhe mereçe ser processado por danos morais". Merece Prisão perpétua por triplo homicídio culposo, aquele que há intenção de matar.
Se fosse pelo menos uma pequena confusão devido a nova reforma ortográfica, mais NÃO! Repetiram 3 (três) vezes "mereçe". Vamos juntos, Todo mundo:
Repetem comigo: ME - RE - CE
Isso denovo:
eme + e - erre + e - cê + e
MERECE.. Isso muito bom!! Não deixem de fazer a lição de casa. Escrever MERECE 3896 vezes.
Lição para Kamila.Assinale a alternativa correta:
Pessoa ( )
Pesoa ( )
Peçoa ( )
Jente ( )
Nenhuma das anteriores ( )
Bjo adorei o blog... I_Félix