13.5.08

Duas caras

Não quero falar da novela das oito da TV Globo em que a mocinha pode terminar aos beijos com o vilão, por mais intrigante que isso possa parecer.

Também não quero falar de falsidade. Dizer que o mundo está cheio de gente falsa é puro clichê, isso todo mundo sabe. A parte digna de nota é justamente o oposto: a parcela verdadeiríssima de nós mesmos.

A maior das verdades é que ninguém é uma coisa só o tempo todo. Graças a Deus somos personagens redondos, complexos, com duas, três, duzentas facetas diferentes.

Isso faz cair por terra o conceito mais básico de falsidade, deixa o seriado de nossas vidas mil vezes mais interessante e tem o maravilhoso efeito colateral de impedir que você desenvolva ódio mortal por qualquer outro ser vivo. É sempre possível pensar que a pessoa está sendo fiel ao que ela sente e pensa _naquele momento.

Seria muito descaramento da minha parte exigir de qualquer um que fosse um nível de certeza e discernimento que eu próprio nunca demonstrei na minha vida.

É como querer um dia queijo branco e no outro queijo amarelo. É como achar que encontrou o amor da sua vida e descobrir que não, que era só mais um engano. Dá pra ter raiva de alguém que sinceramente tentou e que descobriu que não estava lá a sua felicidade?

É como se recusar a crer que boa parte do que chamamos de cereja não passa de mamão.

Tudo tem pelo menos dois lados, duas caras, duas faces da mesma monedita.

- Una monedita, por favor...

O apelo melódico e melancólico é do mendigo boliviano (ou argentino, ou paraguaio, ou...), mas a verdade é que o desejo nunca é realmente de apenas uma única moeda. Bem, se o mendigo for espanhol, pode até ser, no máximo, de uma moeda única.

Uma amiga, no Ceará, tirou do bolso uma moeda e a entregou a um velhinho que se aproximou dela e de uma colega. O velhinho _sujo e quase maltrapilho_ não era mendigo, era o avô da colega.

Na Índia, uma menina nasceu com duas caras. Duas faces. Quatro olhos (que piscam juntos), dois narizes, duas bocas. E o mais interessante é que, ao invés de ser tratada como aberração, de sofrer preconceito, de ser rejeitada pelas pessoas, a bebezinha é venerada como deusa!

As pessoas acreditam que tocá-la traz boa sorte e que a menina é uma bênção, um milagre, a reencarnação de um espírito de luz. Parece nem passar pela cabeça de ninguém que a menina seja deficiente.

Mas o mais curioso nem é isso. O melhor de tudo é que a mãe esconde o próprio rosto e exibe o da filha! Veja.



Não quero fazer um post cabeça com moral da história ao estilo "respeite as diferenças". Também não quero adotar o discurso de que tudo tem um lado bom. Longe de mim abraçar uma causa Polyanna! Nada disso. Mas essa notícia me fez pensar que tudo na vida permite pelo menos um olhar a mais. Uma perspectivazinha diferente que seja.

O texto veio logo na cabeça, mas não escrevi antes porque estava ocupado em sofrer um pouco. Lamentar meus erros. Lamentar ser tão intenso às vezes. Faz parte.

No fim, concluí, de novo, outra vez e uma vez mais, que não há como não ser intenso em todos os sentidos. Não há por que não ser! Na pior das hipóteses, creio eu, isso facilita as coisas e agiliza processos e desencontros que já estavam fadados a ocorrer e que, no máximo, poderiam levar alguns dias a mais para tomarem corpo. Sigo duvidando de que faria alguma diferença no final.

Mas é óbvio que deve existir uma maneira completamente diferente (talvez oposta pelo vértice) de enxergar tudo isso. Um jeito antagônico de ver essa mesmíssima coisa.

Na escola, oitava série, uma colega de classe ganhou da professora sem nenhuma didática o "Troféu Tijolo" (que era concedido aos asnos de plantão) por ter dito a seguinte "asneira" ao responder a uma pergunta durante uma apresentação à turma: "É exatamente a mesma coisa, só que tem uma diferença."

Não era asneira coisíssima nenhuma. Ela era uma visionária. E ainda levou o troféu.

7 comentários:

Juquinha Original disse...

Impressionante o vídeo da menininha com duas faces!
E qto ao texto: ótimo, como sempre!
Parabéns! Uma vertente que não foi tocada no texto é tb a forma como vemos tais situações dúbias enquanto somos levados pela visão da maioria!

Maria Creusa disse...

escreve lindamente, sem dúvida.

Camila disse...

Não se arrependa de ser intenso, você é demais por causa disso!!!
Um beijão de que te adora e sente saudades!!

Bernardo disse...

Na meu papel de ariano que tem a palavra como axioma eu concordo completamente... mas tenho dificuldades hehehe tenho que me policiar.

AEZ disse...

Eh, boludo, cómo andás tanto tiempo...!!!!!!!

Ayer River salió campeón y me hubiera gustado que estuvieras en la cancha...

En fin, a ver cuándo nos vemos che.

Abrazo grande.

PD: obrigado a Fluminense por la alegría de eliminar a Boca, jejejejejeje.

Rackel disse...

Perspectivas? Temos várias... a vida é mesmo um caleidoscópio, meu caro!

=)

Fernanda disse...

Brunão !
Você, intenso?
Nãoooooooooooooooooooo !! Imagina !
Risosssssssssssssssssssssss
Intenso sim, e com orgulho, né? Mas às vezes a gente precisa observar, dexar que as coisas tomem rumo, porque às vezes elas seguem um caminho que a gente nem imaginava...
Beijos