Mas um juiz federal de Porto Alegre decidiu nesta semana que um tapinha _ao menos quando cantado_ pode doer muito... no bolso. O magistrado condenou a gravadora carioca Furacão 2000 (que é uma espécie de Meca do Funk, talvez a maior responsável pela divulgação do gênero no país) a pagar R$ 500 mil de indenização ao Fundo Federal em Defesa dos Direitos da Mulher.
O magistrado entendeu que a música "Um Tapinha Não Dói", lançada no início da década, gerou um dano difuso às mulheres por incitar a violência contra o sexo feminino.
Viagem no tempo e me lembro de que Caetano Veloso foi vaiado no Canecão em 2001 ao cantar um funk da moda. Era justamente o "Tapinha", o megahit do MC Naldinho, da MC Bela e da professora primária que virou funkeira, a MC Beth, que também nos brindou com a Dança da Motinha.
A decisão do juiz foi dada em uma ação civil pública iniciada em janeiro de 2003 pelo Ministério Público Federal no Rio Grande do Sul. A Furacão 2000 anunciou que iria recorrer da decisão.
Detalhe: a decisão ajudou a trazer a música de novo à lembrança de todo mundo. O "Tapinha", que andava esquecido, foi literalmente reposicionado na mídia. Seria o caso de avaliar o dano causado às mulheres pela decisão da Justiça?
O mesmo juiz não viu problema nenhum na canção "Tapa na Cara", do grupo Pagodart, hit de axé que deixou divas baianas como Daniela Mercury e Margareth Menezes indignadas. As cantoras se recusaram a cantar a música no Carnaval de Salvador. Na mesma ação, o Ministério Público tratou das duas músicas, mas o juiz só viu problemas em uma delas. Resumo da ópera: "Tapa na Cara" pode; "Tapinha", não.
Parece que a iluminada BBB Nathália tem razão. Ou, enfim, pelo menos é esperta e segue a jurisprudência.
O MC Naldinho, autor e intérprete da canção "Tapinha", segundo a Folha Online, explicou que a idéia da música surgiu num dia em que deu um "tapinha corretivo" em sua filha Karolyne, hoje com 10 anos, mas com 3 na época. A menina teria retrucado: "Pai, um tapinha não dói." E o funkeiro insiste: a idéia passava longe de ofender as mulheres.
Verdade ou não, tudo isso me deixa com a leve impressão de que há coisas muito mais importantes para a gente se preocupar no Brasil.
O que não dá pra perder é essa ótima desculpa para falar de funk e de como esse ritmo mais do que interessante conquistou até os paulistanos moderninhos. Perdi a conta de a quantas festas fui em São Paulo em que os DJs tocavam funk em meio a sucessos indie. Hahaha. E tem gente que ainda duvida que o funk virou cult.
Outro dia estive no Bailinho, uma festa aqui no Rio em que o ator Rodrigo Penna e seus convidados (gente como Davi Moraes e Lúcio Mauro Filho) fazem um som divertido, misturando hits eletrônicos e samba, passando pelo rock e pelo pop. A experimentação rola ali com certa liberdade e pude ouvir pérolas como "Chorando se foi", megahit do Kaoma, tocada em ritmo de funk.
Também me lembrei desses malucos aqui, que passam a vida gravando versões acústicas de funks cariocas. Surreal.
E tive ainda o privilégio de, ao escrever este texto, visitar pela primeira vez na vida um site que jamais havia pensado em procurar. Divido com vocês esse prazer inenarrável. É o site de Leandro Dionísio dos Santos Moraes, nascido na Cidade de Deus, o artista que é um bonde.
Mas o funk é poesia pura, a coisa mais linda do mundo, não é mesmo, Tom Zé? Veja se você concorda.
Cada doido com a sua mania.
Eu, por exemplo, só quero é ser feliz, andar tranqüilamente na favela onde eu na(i)sci.
Mas isso é porque ainda sou calouro na universidade do funk. Se São Paulo me devia (e me deu) um edredon, o Rio ainda me deve um baile funk.
Haja créu. Haja cerol.
4 pessoas deram palpites:
O funk já pode tomar o lugar da gente... Hahaha. Viva Tom Zé!!!
Legal o blog. Parabens pela capacidade de falar de assuntos tão diferentes! Bjo
Ui...
Sem comentários!
rs
Mister Bruno, tem um desafio lá no meu blog para vc!
Beijos e bom feriado.
Ah! E me lembre de depois te contar no nosso projeto de formar os novíssimos baianos no Rio! Mineiros, paulistanos, portenhos são bem-vindos...
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