18.3.08

Quando a saudade aperta

De tudo ao meu amor serei atento antes. Mas depois... Ah, depois é cada um com a sua dor.

A dor de todo esse mundo, pra mim, é algo que, ao menos nos últimos dias, se aproxima do desconforto de ter elásticos entre os dentes e apertar o aparelho ortodôntico.

O juiz federal e autor de livros de "auto-ajuda" sobre concursos públicos William Douglas compara os sacrifícios para passar nos exames aos aparelhos ortodônticos. Diz ele: "Lembro-me da máxima que criei sobre concursos: 'a dor é temporária, o cargo é para sempre.' Aplicada aos aparelhos ortodônticos, 'a dor é temporária, o sorriso é para sempre'."

Sim, sim, seguindo a máxima de que 30 é o novo 20, tão difundida por Cíntia e sua comparsa Melissa, me aproximo da mudança de década com um sorriso que não reconheço.

Aliás, me roubaram mais que meu sorriso recentemente. Muito recentemente. Eu diria, com chance de erro, que parece que foi ontem.

Mas a dor que me lembra a cada instante que tenho dentes (e que eles precisam mudar de lugar) não supera a dor sorrateira do silêncio do outro lado da linha.

Não há o que dizer? Como é possível? Se antes, com tal zelo, havia tanto a ser dito?

O outro lado da linha é o outro lado do mundo.

Inútil paisagem. Um dia frio. Longa é a tarde. Águas de março _e, apesar do calor, o inverno no Leblon é quase glacial. Nem sempre.

Que adianta ouvir que escrevo bem, se não me faço entender? Às vezes, eu queria que a vida fosse escrita. E, no mundo da TV, me afasto mais um pouco da palavra escrita. "Ai, que absurdo!", diria a Narcisa.

Minha ansiedade ainda me mata. Sou tão ansioso que sinto saudade até do que ainda nem aconteceu. Saudade do porvir. Hahaha.

Sou tão ansioso que me atropelo. Não tenho pânico nem nada, mas sou relativamente bastante afobado. Sobretudo quando meus olhos brilham diante de algo que admiro, quero, amo.

Assim é com o jornalismo. Assim é com a palavra bem empregada. E assim é com o verso certo, no momento certo, na trilha sonora perfeita.

Uma pesquisa da University of Southern Califórnia, nos Estados Unidos, mostra que a ansiedade pode aumentar o risco de uma pessoa desenvolver doenças cardíacas em até 40%. Mas o que fazer quando são justamente os males do coração os causadores da ansiedade?

Já um estudo da USP de Ribeirão Preto concluiu, em 2006, que os ajustes em aparelhos ortodônticos fixos ativam estruturas do cérebro relacionadas à dor. Na prática, quando o aparelho é apertado pelo dentista, células nervosas que captam sinais de dor são ativadas e funcionam mais intensamente.

Com o passar dos dias, no entanto, ocorre o inverso: segundo a pesquisa, aumenta a participação dos neurônios responsáveis por reduzir ou filtrar a dor.

Isso leva a crer que um aparelho bem apertado faz todas as dores doerem mais no início. Tecnicamente o aparelho poderia até, talvez, potencializar uma dor de amor. Mas, com o tempo, tem o curioso poder de deixar o sujeito mais durão. Tomara.

Talvez seja essa a explicação científica _ou a desculpa de que eu precisava_ para entender por que ando tão insuportavelmente chato nos últimos dias.

(Pausa para reflexão)

Ai, meu Deus, permita que eu possa mastigar todas as dores _apesar do aparelho apertado. Que eu possa digerir cada suspiro como se fosse o doce que derrete na boca. Que eu possa ser menos intenso e menos melancólico. Menos chato. Menos eu.

Tudo isso, claro, com um belo sorriso no rosto, sem dentes (nem amores) separados.

6 comentários:

Anônimo disse...

meu caro, pode apostar que a estrada vai além do que se vê...
deixa ser como será, tudo posto em seu lugar...
mantenha acesa a chama que as batidas descompassadas dos corações haverão de se orgulhar do seu belo sorriso na sua chegada!

Roberta disse...

Só quem usou aparelho sabe a dor e a delícia de usar. Risos.

Rackel disse...

Aparelhos ortodonticos podem potencializar uma dor de amor?!?

Caramba... boa sorte pra vc aí!

e bons ventos tb
bjs

p.s: esse anonimo adora Los Hermanos, né?!

Melissa de Andrade disse...

Ansiedade pouca e' bobagem! Eu tambem tenho saudade do futuro.

Bjs,

A Comparsa

Camila C. disse...

Só eu sei o que é usar aparelho. Foram 9 ANOS de sofrimento!!!!!!!!!! Agora, o que eu sei é que quanto mais dor se sente mais sensível a ela ficamos. Guenta a mão aí Brunão!
Beijo

Simone Iwasso disse...

querido, ansioso, saudoso, nostálgiso ou não, você anda inspiradíssimo - esse teu post diz tanta coisa...

beijos!