29.3.08

Um tapinha não dói

A BBB Nathália disse em alto e bom som para o Brasil inteiro escutar: "Carinho a gente recebe de pai e mãe, homem tem que dar é porrada na cama". Causou alguma espécie, mas a terra não tremeu nem o mundo acabou.

Mas um juiz federal de Porto Alegre decidiu nesta semana que um tapinha _ao menos quando cantado_ pode doer muito... no bolso. O magistrado condenou a gravadora carioca Furacão 2000 (que é uma espécie de Meca do Funk, talvez a maior responsável pela divulgação do gênero no país) a pagar R$ 500 mil de indenização ao Fundo Federal em Defesa dos Direitos da Mulher.

O magistrado entendeu que a música "Um Tapinha Não Dói", lançada no início da década, gerou um dano difuso às mulheres por incitar a violência contra o sexo feminino.


Um tapinha não dói
Um tapinha não dói
Só um tapinha
Dói, um tapinha não dói
Um tapinha não dói
Um tapinha não dói...


Viagem no tempo e me lembro de que Caetano Veloso foi vaiado no Canecão em 2001 ao cantar um funk da moda. Era justamente o "Tapinha", o megahit do MC Naldinho, da MC Bela e da professora primária que virou funkeira, a MC Beth, que também nos brindou com a Dança da Motinha.

A decisão do juiz foi dada em uma ação civil pública iniciada em janeiro de 2003 pelo Ministério Público Federal no Rio Grande do Sul. A Furacão 2000 anunciou que iria recorrer da decisão.

Detalhe: a decisão ajudou a trazer a música de novo à lembrança de todo mundo. O "Tapinha", que andava esquecido, foi literalmente reposicionado na mídia. Seria o caso de avaliar o dano causado às mulheres pela decisão da Justiça?

O mesmo juiz não viu problema nenhum na canção "Tapa na Cara", do grupo Pagodart, hit de axé que deixou divas baianas como Daniela Mercury e Margareth Menezes indignadas. As cantoras se recusaram a cantar a música no Carnaval de Salvador. Na mesma ação, o Ministério Público tratou das duas músicas, mas o juiz só viu problemas em uma delas. Resumo da ópera: "Tapa na Cara" pode; "Tapinha", não.

Parece que a iluminada BBB Nathália tem razão. Ou, enfim, pelo menos é esperta e segue a jurisprudência.

O MC Naldinho, autor e intérprete da canção "Tapinha", segundo a Folha Online, explicou que a idéia da música surgiu num dia em que deu um "tapinha corretivo" em sua filha Karolyne, hoje com 10 anos, mas com 3 na época. A menina teria retrucado: "Pai, um tapinha não dói." E o funkeiro insiste: a idéia passava longe de ofender as mulheres.

Verdade ou não, tudo isso me deixa com a leve impressão de que há coisas muito mais importantes para a gente se preocupar no Brasil.


O que não dá pra perder é essa ótima desculpa para falar de funk e de como esse ritmo mais do que interessante conquistou até os paulistanos moderninhos. Perdi a conta de a quantas festas fui em São Paulo em que os DJs tocavam funk em meio a sucessos indie. Hahaha. E tem gente que ainda duvida que o funk virou cult.

Outro dia estive no Bailinho, uma festa aqui no Rio em que o ator Rodrigo Penna e seus convidados (gente como Davi Moraes e Lúcio Mauro Filho) fazem um som divertido, misturando hits eletrônicos e samba, passando pelo rock e pelo pop. A experimentação rola ali com certa liberdade e pude ouvir pérolas como "Chorando se foi", megahit do Kaoma, tocada em ritmo de funk.

Também me lembrei desses malucos aqui, que passam a vida gravando versões acústicas de funks cariocas. Surreal.

E tive ainda o privilégio de, ao escrever este texto, visitar pela primeira vez na vida um site que jamais havia pensado em procurar. Divido com vocês esse prazer inenarrável. É o site de Leandro Dionísio dos Santos Moraes, nascido na Cidade de Deus, o artista que é um bonde.

Mas o funk é poesia pura, a coisa mais linda do mundo, não é mesmo, Tom Zé? Veja se você concorda.




Cada doido com a sua mania.

Eu, por exemplo, só quero é ser feliz, andar tranqüilamente na favela onde eu na(i)sci.



Mas isso é porque ainda sou calouro na universidade do funk. Se São Paulo me devia (e me deu) um edredon, o Rio ainda me deve um baile funk.

Haja créu. Haja cerol.

18.3.08

Quando a saudade aperta

De tudo ao meu amor serei atento antes. Mas depois... Ah, depois é cada um com a sua dor.

A dor de todo esse mundo, pra mim, é algo que, ao menos nos últimos dias, se aproxima do desconforto de ter elásticos entre os dentes e apertar o aparelho ortodôntico.

O juiz federal e autor de livros de "auto-ajuda" sobre concursos públicos William Douglas compara os sacrifícios para passar nos exames aos aparelhos ortodônticos. Diz ele: "Lembro-me da máxima que criei sobre concursos: 'a dor é temporária, o cargo é para sempre.' Aplicada aos aparelhos ortodônticos, 'a dor é temporária, o sorriso é para sempre'."

Sim, sim, seguindo a máxima de que 30 é o novo 20, tão difundida por Cíntia e sua comparsa Melissa, me aproximo da mudança de década com um sorriso que não reconheço.

Aliás, me roubaram mais que meu sorriso recentemente. Muito recentemente. Eu diria, com chance de erro, que parece que foi ontem.

Mas a dor que me lembra a cada instante que tenho dentes (e que eles precisam mudar de lugar) não supera a dor sorrateira do silêncio do outro lado da linha.

Não há o que dizer? Como é possível? Se antes, com tal zelo, havia tanto a ser dito?

O outro lado da linha é o outro lado do mundo.

Inútil paisagem. Um dia frio. Longa é a tarde. Águas de março _e, apesar do calor, o inverno no Leblon é quase glacial. Nem sempre.

Que adianta ouvir que escrevo bem, se não me faço entender? Às vezes, eu queria que a vida fosse escrita. E, no mundo da TV, me afasto mais um pouco da palavra escrita. "Ai, que absurdo!", diria a Narcisa.

Minha ansiedade ainda me mata. Sou tão ansioso que sinto saudade até do que ainda nem aconteceu. Saudade do porvir. Hahaha.

Sou tão ansioso que me atropelo. Não tenho pânico nem nada, mas sou relativamente bastante afobado. Sobretudo quando meus olhos brilham diante de algo que admiro, quero, amo.

Assim é com o jornalismo. Assim é com a palavra bem empregada. E assim é com o verso certo, no momento certo, na trilha sonora perfeita.

Uma pesquisa da University of Southern Califórnia, nos Estados Unidos, mostra que a ansiedade pode aumentar o risco de uma pessoa desenvolver doenças cardíacas em até 40%. Mas o que fazer quando são justamente os males do coração os causadores da ansiedade?

Já um estudo da USP de Ribeirão Preto concluiu, em 2006, que os ajustes em aparelhos ortodônticos fixos ativam estruturas do cérebro relacionadas à dor. Na prática, quando o aparelho é apertado pelo dentista, células nervosas que captam sinais de dor são ativadas e funcionam mais intensamente.

Com o passar dos dias, no entanto, ocorre o inverso: segundo a pesquisa, aumenta a participação dos neurônios responsáveis por reduzir ou filtrar a dor.

Isso leva a crer que um aparelho bem apertado faz todas as dores doerem mais no início. Tecnicamente o aparelho poderia até, talvez, potencializar uma dor de amor. Mas, com o tempo, tem o curioso poder de deixar o sujeito mais durão. Tomara.

Talvez seja essa a explicação científica _ou a desculpa de que eu precisava_ para entender por que ando tão insuportavelmente chato nos últimos dias.

(Pausa para reflexão)

Ai, meu Deus, permita que eu possa mastigar todas as dores _apesar do aparelho apertado. Que eu possa digerir cada suspiro como se fosse o doce que derrete na boca. Que eu possa ser menos intenso e menos melancólico. Menos chato. Menos eu.

Tudo isso, claro, com um belo sorriso no rosto, sem dentes (nem amores) separados.