9.2.08

Lula poderia guardar algo mais no banco

Novato no mundo da TV, sigo completamente embasbacado com os milagres da ilha de edição. Minha mais recente descoberta é o chamado "Banco de S". Sim, a letra S, aquela que vem após o P, Q, R e logo antes do T.

Se estou sendo filmado e digo que "As menina chegaram", nem tudo está perdido. A tecnologia permite recortar o S do artigo "as" e colá-lo no final da palavra "menina", de forma que, no fim de tudo, quase milagrosamente, posso aparecer no vídeo afirmando que "As meninas chegaram". Fica perfeito. E isso sem nenhum esforço fonético nem intelectual.

Café com o Presidente. Pronunciamentos em cadeia nacional. Não importa. Lula, se quisesse, poderia falar ao povo com muito menos erros de português. Graças ao Banco de S, que arquiva "esses" para qualquer eventualidade. Todo mundo sabe: quem guarda tem.

No caso das reportagens de TV, corrigir a fala do presidente seria alterar a realidade e, portanto, um desrespeito aos princípios básicos do jornalismo. Seria como, em um jornal, alterar uma foto com Photoshop para melhorar a imagem ou esconder um problema.

No caso da comunicação oficial, não se poderia falar propriamente em dilema ético, creio eu. Mas me parece interessante saber que se trata de uma decisão política do presidente levar ao ar todos os seus erros de português, mesmo existindo recursos para corrigir boa parte deles.

De qualquer modo, quero dizer que, pelo bem da lingüística, não me parece correto desmerecer ninguém por sua forma de falar. Ou seja, este não é um texto de deboche aos erros de português do presidente Lula.

Nessa linha, cito a queridíssima professora de português Thaís Nicoleti, com quem tive o prazer de conviver e aprender nos tempos de repórter da Folha: "Todos sabem falar a sua própria língua. Não se pode usar a fragilidade da educação formal de uma pessoa para atacá-la".

Outro dia Thaís até lembrou em seu podcast na Folha Online um curioso episódio protagonizado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que cometeu um erro de português exatamente quando ironizava os erros de português de Lula.

FHC disse que queria "brasileiros melhor educados, e não brasileiros liderados por gente que despreza a educação, a começar pela própria". Só que o correto, pela norma culta, ensinou a Thaís, era ter dito "brasileiros mais bem educados". Tudo bem que a frase não chega a machucar os ouvidos, mas, rigorosamente, o certo é usar "mais bem" antes de particípio.

Não é de hoje que o preconceito reina no Brasil. E não é de hoje também que quem critica os outros acaba escorregando logo em seguida. Se existe uma certeza na vida é que todo mundo erra. Agora, não há erro maior que chamar de erro o que não passa de variedade lingüística.

No Brasil, os sotaques cearense, pernambucano, baiano e mineiro, entre tantos outros, são desprezados e diminuídos sobretudo pelos cariocas (que são, em si mesmos, bancos de esses ambulantes) e pelos paulistanos ("Meu, cê não tem noção"), que juram de pés juntos que não têm sotaque nenhum!

Eu, que sou um fã incondicional dos sotaques _inclusive do carioca e do paulistano_, coleciono expressões regionais e me divirto bastante com isso. Mineiros dizem "aqui", como paulistanos dizem "então" e os cariocas dizem "olha só". E a vida segue.

O mais importante é prestar atenção ao que se diz. Um vereador do município de General Salgado, no Estado de São Paulo, por exemplo, teve o mandato cassado por quebra de decoro porque chamou um outro vereador de "Clodovil". O que será que ele queria dizer?

É óbvio que o que vale é a essência: o conteúdo do discurso, as verdadeiras intenções, as reais convicções políticas, o amor sincero, o motivo do crime.

Mas, na nossa brasileiríssima superficialidade, afogados em preconceito de todos os tipos, inclusive o lingüístico, quase sempre nos esquecemos desse detalhe.

Talvez por esse motivo sigamos elegendo duas classes de políticos: idiotas que falam bonito e gente, que, com ou sem erros gramaticais, só diz idiotices.

6 comentários:

Camila disse...

O preconceito se reveste de várias maneiras mesmo. Legal o texto.

Anônimo disse...

Lula é um imbecil!!!

Anônimo disse...

Quando vai postar algo sobre o: Hãã???

Mariana disse...

Tem alguém me deveno (como dizem os baianos) um chops (à moda paulistana)...
;)

Rackel disse...

Nossa, enquanto estava lendo a primeira parte do texto, fiquei pensando ' q pessoa cheia de preconceitos linguisticos... mas bem q o lula podia dar uma melhorada na forma como se expressa (não com o recurso do banco de s, mas de verdade),não é?!

Depois eu vi q vc falou de preconceito linguistico e fiquei mais aliviada...

Confesso q esse alivio foi apenas momentaneo, pq no fundo, no fundo, eu mesma continuo com os mesmos preconceitos do começo da faculdade. Continuo achando q a forma de falar d lula reflete um descaso com educação (e ng consegue tirar isso da minha cabeça). E é mto chato saber q o presidente da joça de lugar onde vivo não tem o menor compromisso com a bendita da educação do povo q o elegeu...

enfim...
mudando de assunto, tb gosto do seu outro blog, pq vc o abandonou?!
=(

Bem, bons ventos nesse blog aqui, moço

bjs

Anônimo disse...

Lula é um idiota.