25.2.08

Hã???

O Oscar me surpreendeu. E olha que nem foi porque os atores americanos não tiveram vez.

Para quem não se deu conta, os atores premiados são todos importados: Tilda Swinton é britânica, Marion Cotillard, francesa, Javier Bardem, espanhol das ilhas Canárias, e Daniel Day-Lewis, londrino com nacionalidade britânica e irlandesa (fez até uma cômica reverência no palco para sua "Rainha", a também britânica Helen Mirren).

Enfim, mas nem foi por nada disso que me surpreendi. Foi por causa da música.



"Falling Slowly", premiada com o Oscar, tem um significado especial pra mim.

Confesso que fiquei embasbacado ao ver o reconhecimento, digamos, mundial, de algo que eu julgava tão secretamente meu. E, por mais que eu não consiga traduzir tudo que passa agora pela minha cabeça, não dá pra negar a intensidade da coisa.

Me apaixonei por essa música em um momento bem conturbado, de grandes decisões não tomadas. E a descobri por causa da Alanis, que colocou a despretensiosa canção em seu site, meio que fazendo clima de mistério, sem dizer de quem eram as vozes e identificando a música apenas como "Once". Curioso que sou, vasculhei a internet e nem assim encontrei a resposta. Na verdade, era apenas o nome do filme que tinha essa música na trilha.

Pois é, cantada pela tcheca Markéta Irglová e pelo irlandês Glen Hansard, que também são os atores do filme, a música já tinha virado até toque de celular.

A publicidade do filme pergunta "Com que freqüência você encontra a pessoa certa?" e responde com o título: "Once".

-Hã??? Uma vez?... Será?!

A gente tem sempre uma escolha nas mãos. A gente pode sempre escolher. E deixar tudo como está pode ser a mais dura das escolhas. Sobretudo quando a decisão não é sua, e o veredito de ficar bem longe de você parte exatamente de quem você ama ou amou (ou talvez nem exista tempo verbal pra materializar essa mistura de sentimento engasgado, quase um pretérito-presente).

O jeito é acreditar que, talvez, seja apenas uma fase e que, como seguramente sonham os atores americanos, sua estrela logo vai voltar a brilhar.

19.2.08

Sinal fechado

Não quero assustar ninguém, mas quase morri ontem. E eu só estava em meus afazeres diários. Tudo por causa de um sinal. Sim, sinal mesmo _nada de farol, Paulicéia.

Essa mania que a gente tem de entrar em carro de desconhecidos todos os dias. Esse hábito estranhíssimo de entregar a vida a um cidadão que você nunca viu. Não, não se trata de pegar carona com estranhos, é pior: ainda é considerado chique pagar por isso. Um conforto chamado táxi. E todo mundo viu a história da Maria Luísa Rodenbeck.

Quase morri porque o sinal fechou. E parece que o motorista não viu. Teve um outro engraçadinho, do outro lado, que também não viu. Esses cruzamentos malucos de onde vêm carros de três, quatro lados diferentes.

Diz a Adriana Calcanhotto: cariocas não gostam de sinal fechado. Mas o pior é que nos últimos dias os sinais estão rondando a minha vida.

Muito antes de ontem, passei a semana cantarolando "Sinal Fechado", do Paulinho da Viola. A versão inigualável é a da Bethânia e do Chico, mas vale Elis, vale o próprio Paulinho. Ouvi a música a semana inteirinha. No mínimo curioso.

Fiquei me lembrando do disco do Chico de 1974 que leva esse nome, justamente aquele em que ele, perseguido pela censura, gravou músicas de outros compositores. Do disco todo, só uma música é dele mesmo, "Acorda amor", assinada com o pseudônimo de Julinho da Adelaide. Esperto, aproveitou o título da música do Paulinho para batizar o disco e mandar um recado à ditadura.




Pois é. Estou nostálgico. E "Sinal Fechado" fala justamente de reencontro, né, um tipo de reencontro intenso, mas que te deixa sem saber o que dizer. Não há como fazer estatística, mas minha vida tem se resumido a isso. Olá, como vai? Eu vou indo, e você, tudo bem? E por aí vai.

Mais engraçado ainda é que ontem foi a estréia da minissérie Queridos Amigos, da Maria Adelaide Amaral. Texto delicado, sensível, interpretação bastante feliz de grandes atores. De BH, minha mãe me disse ao telefone que se identificava profundamente com aquilo tudo.

O tema é justamente o reencontro de grandes amigos e amores que de um certo modo ficaram pra trás, mas que se mantiveram incrivelmente presentes ao mesmo tempo. Me emocionei, mas eu nem sou parâmetro, sou manteiga derretida mesmo. Ah, e fala também sobre essa coisa de ver a morte de perto. Na trilha sonora da minissérie, quem diria, "Sinal Fechado."

Sim, a mesma música vencedora do V Festival de Música Popular Brasileira, da TV Record. Novembro de 1969, Paulinho da Viola.





E eu tinha algo mais a dizer. Mas me foge a lembrança.

9.2.08

Lula poderia guardar algo mais no banco

Novato no mundo da TV, sigo completamente embasbacado com os milagres da ilha de edição. Minha mais recente descoberta é o chamado "Banco de S". Sim, a letra S, aquela que vem após o P, Q, R e logo antes do T.

Se estou sendo filmado e digo que "As menina chegaram", nem tudo está perdido. A tecnologia permite recortar o S do artigo "as" e colá-lo no final da palavra "menina", de forma que, no fim de tudo, quase milagrosamente, posso aparecer no vídeo afirmando que "As meninas chegaram". Fica perfeito. E isso sem nenhum esforço fonético nem intelectual.

Café com o Presidente. Pronunciamentos em cadeia nacional. Não importa. Lula, se quisesse, poderia falar ao povo com muito menos erros de português. Graças ao Banco de S, que arquiva "esses" para qualquer eventualidade. Todo mundo sabe: quem guarda tem.

No caso das reportagens de TV, corrigir a fala do presidente seria alterar a realidade e, portanto, um desrespeito aos princípios básicos do jornalismo. Seria como, em um jornal, alterar uma foto com Photoshop para melhorar a imagem ou esconder um problema.

No caso da comunicação oficial, não se poderia falar propriamente em dilema ético, creio eu. Mas me parece interessante saber que se trata de uma decisão política do presidente levar ao ar todos os seus erros de português, mesmo existindo recursos para corrigir boa parte deles.

De qualquer modo, quero dizer que, pelo bem da lingüística, não me parece correto desmerecer ninguém por sua forma de falar. Ou seja, este não é um texto de deboche aos erros de português do presidente Lula.

Nessa linha, cito a queridíssima professora de português Thaís Nicoleti, com quem tive o prazer de conviver e aprender nos tempos de repórter da Folha: "Todos sabem falar a sua própria língua. Não se pode usar a fragilidade da educação formal de uma pessoa para atacá-la".

Outro dia Thaís até lembrou em seu podcast na Folha Online um curioso episódio protagonizado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que cometeu um erro de português exatamente quando ironizava os erros de português de Lula.

FHC disse que queria "brasileiros melhor educados, e não brasileiros liderados por gente que despreza a educação, a começar pela própria". Só que o correto, pela norma culta, ensinou a Thaís, era ter dito "brasileiros mais bem educados". Tudo bem que a frase não chega a machucar os ouvidos, mas, rigorosamente, o certo é usar "mais bem" antes de particípio.

Não é de hoje que o preconceito reina no Brasil. E não é de hoje também que quem critica os outros acaba escorregando logo em seguida. Se existe uma certeza na vida é que todo mundo erra. Agora, não há erro maior que chamar de erro o que não passa de variedade lingüística.

No Brasil, os sotaques cearense, pernambucano, baiano e mineiro, entre tantos outros, são desprezados e diminuídos sobretudo pelos cariocas (que são, em si mesmos, bancos de esses ambulantes) e pelos paulistanos ("Meu, cê não tem noção"), que juram de pés juntos que não têm sotaque nenhum!

Eu, que sou um fã incondicional dos sotaques _inclusive do carioca e do paulistano_, coleciono expressões regionais e me divirto bastante com isso. Mineiros dizem "aqui", como paulistanos dizem "então" e os cariocas dizem "olha só". E a vida segue.

O mais importante é prestar atenção ao que se diz. Um vereador do município de General Salgado, no Estado de São Paulo, por exemplo, teve o mandato cassado por quebra de decoro porque chamou um outro vereador de "Clodovil". O que será que ele queria dizer?

É óbvio que o que vale é a essência: o conteúdo do discurso, as verdadeiras intenções, as reais convicções políticas, o amor sincero, o motivo do crime.

Mas, na nossa brasileiríssima superficialidade, afogados em preconceito de todos os tipos, inclusive o lingüístico, quase sempre nos esquecemos desse detalhe.

Talvez por esse motivo sigamos elegendo duas classes de políticos: idiotas que falam bonito e gente, que, com ou sem erros gramaticais, só diz idiotices.