8.1.08

Lula e o piriri gangorra

Piriri gangorra. É assim que se chama, na minha terra, quando o cidadão não tem alternativa além de passar o dia inteiro indo e voltando de um certo cômodo da casa. É quando o que deveria ser sólido se anuncia líquido - e, pior, se anuncia várias vezes em um curto intervalo de tempo.

Dois outros conceitos precisam ser introduzidos para complementar a combinação bombástica que se traduz em drama e permite que este texto faça sentido. São elementos, por si só, inconciliáveis: as festas de fim de ano e o caos aéreo. Juntos, produzem filas intermináveis, justamente quando o sujeito mais anseia retornar ao convívio dos seus.

Pois bem, graças às festas de fim de ano e aos tradicionais abusos de comidas e bebidas aos quais o sistema digestivo não está acostumado, terminei passando bem mais tempo do que gostaria em visitas a quase todos os toilettes do aeroporto do Galeão. Como já era previsto, um imprevisto aconteceu e meu vôo não só se atrasou como surgiu no painel do aeroporto como um evento duvidoso e incerto, sem previsão de decolagem.

E, claro, eu não estava só. Tinha comigo a agradável companhia de um velho conhecido que eu não via há séculos: um legítimo piriri gangorra.

Mas graças a ele, descobri algo interessantíssimo. Havia um padrão que se repetia em todos os banheiros. Nas portas dos reservados, do lado de dentro, ali mesmo onde o pessoal de pouca educação deixa inscrições rupestres sobre práticas sexuais e palavrões de todos os tipos.

Do lado de dentro da porta de inúmeros reservados, encontrei a mesma mensagem: "FORA, LULA!".

Confesso que, no início, me preocupei mais com o inconveniente escatológico que com a inscrição política, mas, como o piriri era gangorra, e as idas ao banheiro eram constantes, o instinto jornalístico falou mais alto, e a curiosidade, claro, venceu.

Percorri diferentes toilettes e vários reservados. Letras diferentes, com palavras escritas em cores distintas. Esferográficas, canetinhas pilot, lápis... "FORA, LULA", em uníssono.

Foto: Gabriel Borges
Fui tomado por uma forte emoção. E, não, não foi o piriri. Foi uma súbita consciência do desespero alheio.

Um cidadão que picha "FORA, LULA" no reservado de um banheiro do aeroporto precisa estar ali há horas. O sujeito não aproveita um minutinho no banheiro do aeroporto pra fazer isso. Ao contrário, é preciso muita raiva acumulada! Raiva de quem foi se irritando com a inércia total e absoluta. Raiva de quem ficou tanto tempo no aeroporto que deu até vontade de fazer cocô. Raiva de quem foi se enfezando aos poucos. Bom, e é daí mesmo que vem a palavra.

O sujeito que nada mais tem a fazer, que já gritou, já berrou, já chorou, já deu entrevista aos jornalistas, já reclamou a quem de direito e a quem quer que fosse. O sujeito está literalmente na merda e, ainda cheio de indignação. É aí que ele se lembra de que tem uma última arma: a caneta.

No banheiro, depois das necessidades, ele reluta. É um pai de família, trabalhador, homem de bem. Não faz esse tipo de coisa desde o ginásio. Mas é tomado por um ímpeto irresistível, pega a caneta e escreve na parede: "FORA, LULA". O protesto fica no reservado, atrás da porta, e o sujeito, bem ou mal, sai do banheiro aliviado.

Tenho visitado banheiros em todo e qualquer aeroporto por onde passo _a coisa se tornou um hobby macabro. E o resultado da investigação é este: encontrei pelo menos um "FORA, LULA" em todos os banheiros de aeroportos que visitei até agora.

Fiquei pensando o quanto isso pode revelar da alma do brasileiro _da indignação comum, diária, vivida por todos, mas sentida sempre de forma solitária, já que parece dar muito trabalho fazer piquete. Quanto a maneira de protestar pode dizer de um povo?

No fim das contas, sugiro aos assessores do Presidente da República que percorram logo a via crucis dos banheiros aeroportuários. E que levem esponja e bastante detergente. Alguém precisa cuidar disso, conter as massas. Não acredito em revolução, mas me parece que o brasileiro anda pensando demais no governo na hora de fazer o número dois.

Há uma voz rouca dos toilettes. E ela brada insultos contra o Planalto.

6 comentários:

Guilherme disse...

Adorei o artigo! Será que o brasileiro lembra tanto do nosso presidente nessa hora porque acredita que nosso governo só faz merda?? Interessante isso... Um abração,

AEZ disse...

¡¡Hola boludooooooooooooo!! Qué alegría tu aparición. A ver si me mandás un correo contándome cómo y en qué andás... ¡¡¡feito sorete!!!

Abrazo grande.

Humberto disse...

Oi Bruno,

gostei do texto. Ainda mais pelo fato de se tratar de um: "Fora, Lula!" e também do velho e bom companheiro o piriri gangorra. Que eu sou freguês assíduo.

Abraço e continue com o bom trabalho

PS: Sou eu o betinho

Maeli disse...

Adorei :)))

Unknown disse...

Texto show de bola. Muito bem escrito parabéns!
E descreveu perfeitamente o que passamos algumas vezes ao ano!
vlw

Anônimo disse...

Muito boa a reflexão!