25.1.08

Ai de ti, Ibirapuera

O caminho para São Paulo é apagar todas as estrelas do céu e acendê-las de novo no chão. Foi assim que tentei explicar, quando me mudei pra São Paulo, a falta que eu sentia das estrelas, de tantas coisas, e o encantamento com a nova cidade e suas luzes.

Eu sou mineiro de nascimento. Mas o Aurélio e o Houaiss dizem que paulistano é aquele que nasce ou vive em São Paulo. Isso tecnicamente faz de mim um ex-paulistano. Só que eu não me convenço de que perdi o título. Gosto dele. Não que eu quisesse seguir em São Paulo agora, escolhi sair: primeiro, para Buenos Aires e, depois, para o Rio.

Uma pesquisa do Ibope encomendada pelo Movimento Nossa São Paulo e publicada hoje revela que 55% dos paulistanos sairiam da cidade para viver em outro município, se tivessem a oportunidade. Sobre isso, duas considerações: 1) oportunidade se cria, ficar ou sair é sempre uma escolha; e 2) O amor por São Paulo é, em si mesmo, essa contradição _não existe sem ela e cresce, por causa dela, todos os dias.

Um carioca deixa o Rio porque não se sente seguro, porque a cidade está feia e suja, porque precisa ganhar dinheiro, porque se cansou de ser provinciano, porque a vista de sua belíssima casa na Gávea agora é a favela. Para o carioca, uma agressão à cidade é como uma facada no peito. Ele é capaz de fugir do Rio para não enxergar (e, assim, não sofrer) a decadência de sua terra abençoada.

São Paulo não aceita essas desculpas bestas. São Paulo é agressiva desde o início, para o bem e para o mal. São Paulo quer um bom motivo pra ser abandonada, cobra caro por qualquer traição. São Paulo pode olhar nos seus olhos e perguntar "Qual é, mano?". São Paulo nunca te enganou, nunca escondeu os podres, nunca te disse que era um paraíso, nunca veio com essa conversinha mole de Cidade Maravilhosa.

Todo mundo sabe que é uma merda. Mas uma merda cult, uma merda que a gente ama.

São Paulo aceitou até que se publicassem guias com a receita: Fuja da cidade.

Na mesma pesquisa do Ibope, a cidade aparece como "um lugar bom para se morar" na opinião de 50% dos entrevistados.

Talvez, entrevistado no dia seguinte, o mesmo sujeito teria dito que, se pudesse, fugiria. E aquele lá, o que tinha certeza da fuga no primeiro dia, provavelmente titubearia no dia seguinte.

São Paulo tem coisas que só São Paulo tem. E é preciso ter sido paulistano pra entender. É preciso ter comido muita pipoca doce cor-de-rosa.

Seguindo o exemplo da cidade, também me repito e me reciclo. Reedito palavras que já escrevi. Só porque hoje é aniversário de Sampa: 454 primaveras acinzentadas.

Se você pensa em largar Minas, deixar a Bahia, sair de Canindé, no Ceará, e viver em São Paulo, esteja preparado para encontrar muito do novo e muito do mesmo. Todo dia haverá surpresa; todo dia haverá tédio _tudo isso ao mesmo tempo, no mesmo mergulho e no mesmo flash.





São Paulo me ensinou que sempre é possível amar de novo. São Paulo me deu um edredon, toalhas de mesa e a primeira melancia que comprei com meu dinheiro. São Paulo me deu colegas de apartamento, amigos de todos os tipos, noites sem dormir, beijos no sofá da sala.

São Paulo me deu "Ronda" cantada por Vanzolini e me fez amar ainda mais o jornalismo. São Paulo me deu choro engasgado, ordem a ser cumprida sem choro nem vela e choro de tanto riso. Por fim, São Paulo me deu garoa fina, chuva de verão com hora marcada e tempestade que faz até desabar barraco.

Repórter, fui cobrir um deslizamento de terra na zona leste paulistana. Encontrei um haicai em uma página de livro, bem no meio da lama e do que sobrou da casa de um pintor que perdeu dois filhos e outros cinco parentes. Foram todos soterrados após uma forte chuva.

"Que cheiro cheiroso de terra molhada quando a chuva chuvisca." Era o haicai, e o sol estava no alto do céu.

Em um hotel luxuoso no bairro dos Jardins, na mesma São Paulo, conheci um pianista de 76 anos que me disse que só tinha descoberto sua verdadeira vocação havia dez anos. Era compor e tocar canções de todo tipo!

Eu estava parado na porta do bar do hotel, cansado em um final de dia, quando ele me perguntou se eu tocava algum instrumento musical.

Eu disse que não, mas que ainda haveria de aprender. Ele sorriu e contou sua história. Quando jovem, falou, queria ser escritor. "Mas nunca fui bom com as palavras, descobri que minha linguagem é a música." E tocou "Gente humilde" no piano.

Na saída, depois de cerca de meia hora de conversa, perguntei como ele se chamava.

"Tchaikovski", respondeu ele, numa gargalhada. Satisfeito com a resposta, peguei meu rumo.





São Paulo é isso tudo, haicai triste em dia de sol, canção triste em tarde feliz, sorriso largo e sorriso tenso. É pressa, mais do que tudo, mais do que todos, toda hora, não importa o destino, o caminho, o motivo.

Atrasado para o cinema, atrasado para o trabalho, atrasado para o próprio atraso, planejado na agenda, o paulistano precisa viver o dia de hoje e só ele.

Apesar de tudo, ir embora é tão duro quanto chegar. A mente apavora até o que já ficou mesmo velho. De novo, alguma coisa acontece, e a surpresa que Caetano canta se repete na saída.

O que fica é um sentimento misturado, mesclado, saudade de cão sem dono.

Minha alma canta, vejo a capital paulista. Cheia de encantos mil, coração do meu Brasil. Sou cego de tanto vê-la, de tanto tê-la estrela.

O amor é cego. São Paulo, gosto de você. E gosto de quem gosta.

Só a ti, Anhangabaú, eu hei de amar.

Ai de ti, Ibirapuera! Dentro de mais um minuto estaremos em Guarulhos. E aí vamos levar uma vida inteira, de táxi, até o endereço final.

18.1.08

A pessoa mais gorda do mundo


Praia de Ipanema, sol de finzinho de tarde, caindo ali ao lado dos Dois Irmãos. E uma moça, gordinha, lamenta no melhor do gauchês:

- Ooooolha, até sei que eu tô gorda, né... Mas aqui no Rio tu te sentes a pessoa mais gorda da cidade.

Eu, que passeava pelo calçadão, escutei o lamento por acaso: era uma conversa entre duas amigas. Claro que dei aquela conferida na circunferência da moça.

Tá, era uma moça gordinha, além de gauchíssima. Mas, não, não era a mais gorda da cidade.

O Rio faz isso com as pessoas. A gente quase sempre se sente a pessoa mais gorda da cidade (ou até do mundo). São corpos tão malhados e sarados que até o sujeito que se julgava ótimo pode voltar pra casa deprimido.

A frase da gaúcha me fez lembrar de uma pesquisa do Ministério da Saúde _feita por telefone, vale ressaltar_ que revela que o Rio, embora não pareça, é justamente a capital brasileira com a maior porcentagem de mulheres com quilinhos a mais!

Agora, é óbvio que toda essa gente flácida nunca está na praia quando você está. E muito menos ainda quando está a gaúcha. Não foi à toa que a pobrezinha quase infartou, quase morreu de desgosto. Bah. E, como a capital com mais homens acima do peso é exatamente Porto Alegre, é muito provável que, em casa, ela não tivesse nenhuma chateação pela bagagem extra.

O que os olhos não vêem o coração não sente. A gordurinha pode estar fantástica escondida no pretinho básico, e ficar incomodada se for preciso expor a figura nas areias cariocas.




Se bem que o problema também pode estar nos olhos, que, viciados, só enxergam o que destrói a auto-estima. É preciso considerar que a imagem que a gaúcha vê no espelho todos os dias pode não ser a dela! Segundo um estudo da Brock University, do Canadá, uma em cada três pessoas com peso adequado à sua altura tem uma imagem deturpada de si mesma.

Nesse ponto, a existência do espelho e dos demais saradíssimos mortais é fundamental para não perder a linha e terminar, de fato, como a pessoa mais gorda da cidade ou do mundo.

Bom, de qualquer maneira, é reconfortante saber que o caminho até lá é longo. O mais pesadinho de todos os tempos, pelo menos de acordo com o Guinness Book, foi o americano Jon Brower Minnoch, que teria atingido os nada invejáveis 635 quilos.

Entre as meninas, temos como horizonte Carol Yager e seus 544 quilinhos comprovados _mas que pode ter chegado aos 727 quilos, segundo a revista Dimensions. Rosalie Bradford também parece ter chegado aos 544 quilos, mas é lembrada sobretudo por ser a campeã da perda de peso.



Carol Yager, que pode ter atingido os 727 quilos



Bem longe de Carol e Rosalie, na pesquisa canadense, nada menos que 31% das mulheres que estavam no peso ideal se disseram gordas! E isso no Canadá. Se fosse no Rio, incluindo os turistas e as turistas gaúchas, esse número talvez subisse bastante. É que o problema aqui na Cidade Maravilhosa não é propriamente o espelho, é o vizinho.

E contra a barriga sarada do vizinho não há argumentos.

8.1.08

Lula e o piriri gangorra

Piriri gangorra. É assim que se chama, na minha terra, quando o cidadão não tem alternativa além de passar o dia inteiro indo e voltando de um certo cômodo da casa. É quando o que deveria ser sólido se anuncia líquido - e, pior, se anuncia várias vezes em um curto intervalo de tempo.

Dois outros conceitos precisam ser introduzidos para complementar a combinação bombástica que se traduz em drama e permite que este texto faça sentido. São elementos, por si só, inconciliáveis: as festas de fim de ano e o caos aéreo. Juntos, produzem filas intermináveis, justamente quando o sujeito mais anseia retornar ao convívio dos seus.

Pois bem, graças às festas de fim de ano e aos tradicionais abusos de comidas e bebidas aos quais o sistema digestivo não está acostumado, terminei passando bem mais tempo do que gostaria em visitas a quase todos os toilettes do aeroporto do Galeão. Como já era previsto, um imprevisto aconteceu e meu vôo não só se atrasou como surgiu no painel do aeroporto como um evento duvidoso e incerto, sem previsão de decolagem.

E, claro, eu não estava só. Tinha comigo a agradável companhia de um velho conhecido que eu não via há séculos: um legítimo piriri gangorra.

Mas graças a ele, descobri algo interessantíssimo. Havia um padrão que se repetia em todos os banheiros. Nas portas dos reservados, do lado de dentro, ali mesmo onde o pessoal de pouca educação deixa inscrições rupestres sobre práticas sexuais e palavrões de todos os tipos.

Do lado de dentro da porta de inúmeros reservados, encontrei a mesma mensagem: "FORA, LULA!".

Confesso que, no início, me preocupei mais com o inconveniente escatológico que com a inscrição política, mas, como o piriri era gangorra, e as idas ao banheiro eram constantes, o instinto jornalístico falou mais alto, e a curiosidade, claro, venceu.

Percorri diferentes toilettes e vários reservados. Letras diferentes, com palavras escritas em cores distintas. Esferográficas, canetinhas pilot, lápis... "FORA, LULA", em uníssono.

Foto: Gabriel Borges
Fui tomado por uma forte emoção. E, não, não foi o piriri. Foi uma súbita consciência do desespero alheio.

Um cidadão que picha "FORA, LULA" no reservado de um banheiro do aeroporto precisa estar ali há horas. O sujeito não aproveita um minutinho no banheiro do aeroporto pra fazer isso. Ao contrário, é preciso muita raiva acumulada! Raiva de quem foi se irritando com a inércia total e absoluta. Raiva de quem ficou tanto tempo no aeroporto que deu até vontade de fazer cocô. Raiva de quem foi se enfezando aos poucos. Bom, e é daí mesmo que vem a palavra.

O sujeito que nada mais tem a fazer, que já gritou, já berrou, já chorou, já deu entrevista aos jornalistas, já reclamou a quem de direito e a quem quer que fosse. O sujeito está literalmente na merda e, ainda cheio de indignação. É aí que ele se lembra de que tem uma última arma: a caneta.

No banheiro, depois das necessidades, ele reluta. É um pai de família, trabalhador, homem de bem. Não faz esse tipo de coisa desde o ginásio. Mas é tomado por um ímpeto irresistível, pega a caneta e escreve na parede: "FORA, LULA". O protesto fica no reservado, atrás da porta, e o sujeito, bem ou mal, sai do banheiro aliviado.

Tenho visitado banheiros em todo e qualquer aeroporto por onde passo _a coisa se tornou um hobby macabro. E o resultado da investigação é este: encontrei pelo menos um "FORA, LULA" em todos os banheiros de aeroportos que visitei até agora.

Fiquei pensando o quanto isso pode revelar da alma do brasileiro _da indignação comum, diária, vivida por todos, mas sentida sempre de forma solitária, já que parece dar muito trabalho fazer piquete. Quanto a maneira de protestar pode dizer de um povo?

No fim das contas, sugiro aos assessores do Presidente da República que percorram logo a via crucis dos banheiros aeroportuários. E que levem esponja e bastante detergente. Alguém precisa cuidar disso, conter as massas. Não acredito em revolução, mas me parece que o brasileiro anda pensando demais no governo na hora de fazer o número dois.

Há uma voz rouca dos toilettes. E ela brada insultos contra o Planalto.