26.4.10

Rastros

Aprendi com o Pequeno Príncipe (e olha que nem sou miss) que cada um que passa em nossa vida leva um pouco de nós mesmos e deixa um pouco de si mesmo. Clap, clap, verdade pura.

O que ninguém costuma dizer é que se dar conta dos rastros deixados por quem passou é uma parte muito importante do seguir em frente. Olhar pra trás e saber exatamente o que cada um deixou em você é, no mínimo, um sinal de serenidade e uma prova irrefutável (e como é bom escrever "irrefutável" logo depois de "prova") de que o que passou realmente passou.

Explico. Sabe aquele amor sofrido, doído, que te fez de gato e sapato? Quer coisa melhor do que se dar conta de que daquela história sobrou apenas um tempero na cozinha ou uma trilha musical?

Não fossem os amores antigos, eu não escutaria Alanis, não teria descoberto as propriedades do alecrim, não conheceria os poderes de uma boa massagem nos pés, não desenvolveria uma enorme simpatia pela cor roxa nem muito menos teria me dado conta da importância de estar sempre preparado. Parecem besteiras sem tamanho, mas tudo isso faz parte de mim.

De repente, é como se eu fosse tão somente um amontoado de peças de outras pessoas, incluindo maneirismos, gírias próprias e figuras de linguagem. Amores, família, amigos. Chefes, colegas de classe. Astros do cinema, personagens da boa e da má literatura. Um quebra-cabeças de outras pessoas que formam a minha figura, de pecinha em pecinha alheia, criando um indivíduo - não necessariamente especial, mas único.

A questão, no entanto, é bem mais complexa do que parece. Das minhas vivências, por conta própria, apreendi muito mais do que os outros me deixaram. Há aquele tipo de aprendizado, conhecimento empírico, que só você mesmo pode perceber, sentir na pele e guardar pra depois. Não sou, portanto, somente um mero quebra-cabeças de peças furtadas dos outros. Sou eu quem as organiza, quem decide como é melhor ordená-las. Sou eu quem determina se o melhor é usar cola ou deixar uma ou outra pecinha solta para que, com sorte, se perca.

Aquilo que aprendemos com a nossa própria experiência ao nos relacionarmos com o mundo não se confunde com aquilo que, mesmo que não nos pareça importante, acaba ficando grudado em nós, como um tijolo que encontra a mistura ideal de cimento.

No primeiro grupo, estão as minhas conquistas, meus passos rumo ao crescimento pessoal, ao amadurecimento e todo esse blábláblá existencial que faz esgotar as prateleiras de autoajuda.

No segundo grupo, muito mais intrigante e que verdadeiramente me interessa, estão esses gostos, dizeres, gestos e sabores que pertenciam aos outros e que teimam em permanecer em nós como souvenirs. É nessa curiosa categoria em que insisto em incluir Alanis Morissette, a cor roxa e o alecrim, por exemplo.

O mais gostoso de tudo isso é perceber que, como esponjas, absorvemos e guardamos essas pequenas coisas todos os dias. A proposta então é tornar esse processo consciente, observar como essa apropriação (indébita ou não) acontece. Acho que pode ser bem divertido.

Dizem que os casais, com o tempo, ficam mais e mais parecidos, inclusive fisicamente. Quem sabe aí não esteja a chave para o sucesso do amor?

Essa é uma angústia antiga: OK, é lindo ficar com uma parte de cada um que passou, mas por que cargas d'água as pessoas simplesmente passam?

Estou cada vez mais convencido de que isso depende não só de amor ou de encantamento, mas também de uma escolha de verdade. Melhor do que dizer que cada pessoa que passa deixa uma parte de si, é poder se orgulhar de uma decisão afirmativa: essa aqui eu escolhi para não passar! Quero sugar tudo, por inteiro, até que ela faça completamente parte de mim.

O problema é que a gente apanha um bocado até descobrir isso. Infelizmente, o amor não é como Toddynho: não vem com instruções nem com canudinho a tiracolo.

25.4.10

Focas e saxofones

Acabo de ler uma matéria sobre um casal de focas que sabem beijar e tocar saxofone. A informação, aparentemente bizarra e inútil, me fez começar o dia com ânimo incomum.

"Nem tudo está perdido", pensei. Pois se até as focas podem, eu também posso. Não que eu pretenda aprender saxofone _na verdade, deixo os instrumentos para as focas, convencido de minha total inaptidão para a música. Beijar, por outro lado, sempre é bom, e quero crer que isso eu já aprendi como se faz.

O fato é que as focas saxofonistas me deixaram com a sensação extremamente positiva de que tudo é possível. Sempre achei que fosse, mas agora, com as focas, tenho certeza. É como se a última gota de dúvida tivesse pingado no balde da certeza, preenchendo-o completamente.

Pois bem, com essa sensação de que tudo está em seu devido lugar, dei início a uma checagem de todos os departamentos da vida. O perdão de que eu falava no texto anterior, meses antes destas frescas e renovadas palavras, aconteceu. O amor, portanto, vai muito bem, obrigado. É dele que nasce minha vontade de seguir em frente, graças a um sentimento inexplicável e, ao mesmo tempo, mais do que compreensível de que tudo vale a pena (mesmo que a alma seja mínima). A família, por sua vez, tem se esforçado para que não faltem demonstrações de carinho. E o trabalho surge também com algumas esperanças e perspectivas. Parece que tudo se acerta. Harmonia pra foca nenhuma botar defeito.

Se uma foca não precisa ser John Coltrane para ser considerada saxofonista, penso que não preciso ter tudo absolutamente perfeito para ser feliz. Claro que nem tudo na vida está como eu gostaria. Obviamente que algumas imperfeições ainda demandam atenção e, como bom virginiano que sou, posso assegurar que sempre haverá algo a aprimorar. Sempre. Sendo assim, o importante é não se prender a detalhes (grandes ou pequenos) para considerar-se feliz. Do contrário, a vida passa e a felicidade nunca chega. Nunca mesmo. Quer coisa mais triste?

Era isso, meus caros, em pleno domingo nublado, gripado, retorno a este blog para anunciar que sou feliz. Notícia que certamente não rende primeira página nem interessa à grande maioria dos leitores, sedenta pelas mais recentes tragédias das páginas policiais.

Talvez, essa tal felicidade pudesse render ao menos uma nota pé, um pequeno registro, uma notinha mínima numa coluna sem importância, assinada por um jornalista sem credibilidade. Se fosse publicada, a informação serviria para que, no finalzinho da reportagem, ficassem todos com a sensação de que o mundo é bom.

Claro que o mundo é horrível, mas ele é bom, entende?

As focas, saxofonistas ou não, entenderiam. Não é à toa que elas também são experts em beijos.

11.11.09

A quem interessar possa

A quem interessar possa: eu fiz o meu amor sofrer. Eu feri e machuquei da forma mais vil. Construí um alicerce tão frágil, tão vulnerável que obviamente não tinha como permanecer de pé. Era só um castelo de cartas marcadas e qualquer ventinho besta seria capaz derrubar.

Passado o vendaval, consigo enxergar todas as besteiras que fiz. E, se ainda não sei explicar como me compliquei tanto, ao menos estou repleto da certeza de que isso não vai se repetir.

A dor de machucar o amor é a maior de todas. Quando alguém, com as armas do amor, machuca um desconhecido sem importância, a solução é um pedido de desculpas e olhe lá. Cada um com os seus problemas, diriam alguns. Se um não quer, dois não brigam (nem namoram). Outra coisa completamente distinta é machucar alguém que você ama.

Tomadas todas as dores do mundo, doídas e sentidas, nenhuma delas é tão dolorosa quanto a dor do amor que feriu. Não falo do amor maltratado, do amor ferido. Mas do amor agente da ação, o amor que desfere o golpe, que enfia o facão e rasga o peito do objeto do amor.

Não recomendo a experiência, meus queridos. Não chego a falar de chagas e martírios, mas creio que agonia, tormento, sobressalto e mágoa definem bem o sentimento. Também não quero propor um campeonato de horrores e suplícios.

Mas é fato que, passada a dor aguda do golpe mortal, e não sendo cientificamente possível voltar atrás, resta a navalhada, a úlcera (ou gastrite) aberta de um amor.

Muito mais do que doeu o golpe, vai doer a ferida. O trauma, os gritos e os gemidos se repetem nos ouvidos como ecos do desfecho cruel de um amor que se queria tranquilo.

Sobra então o castigo de se arrepender do aconchego perdido. De repente, o melhor lugar do mundo já não existe mais. Simplesmente foi pulverizado da face da Terra. O deleite e o inferno se confundem num só sofrimento, num só ferimento, num só ressentimento.

Re-sentimento, sim, porque o sentimento vai e volta, em ondas, como os calores da menopausa. O ressentido se ressente do amor perdido que deveras sente. Todos os dias, experimenta novamente o carinho e a ferroada, o sorriso e a convulsão. Voluptuoso é o choro e sedutora é a vontade de se consumir no choro. É como se cada lágrima pudesse recompor uma pequenina porção do gozo que não volta mais.

Sufocar com mentiras um amor de verdade é, talvez, o maior dos crimes contra si mesmo. Cada meia-verdade (ou mentira inteira) afasta mais aquele que ama do seu amor. Portanto, meus caros, antes uma dura verdade que uma doce saída, honrosa ou não.

Impressionante o que a gente precisa passar para amadurecer. Longe de mim competir com dores e amores, mas acho que todo mundo já fez uma grande merda nessa vida. É difícil julgar os outros. A merda que eu fiz, por exemplo, foi federal, generalizada e fedorenta. Causou sofrimento alheio, mas me fez sofrer mais do que tudo.

Diante do sofrimento e da verdade descoberta, alguns dirão: "Vá se tratar!". Outros farão parecer a coisa mais normal do mundo. Um terceiro indivíduo fará um discurso cristão (esse pode ser um motorista de táxi, um estranho qualquer) e recomendará que você entregue a alma a Jesus (não o da Madonna, mas o de Nazaré mesmo), ressaltando que todo pecador merece o perdão.

Aí, meu amigo, você se cala e se pergunta se, por mais que Deus e o mundo inteiro te perdoem, você mesmo vai ser capaz de SE perdoar. Aí não tem nada a ver com religião, ou até tem, né, depende da religião de cada um. Mas esse é o perdão mais difícil.

Pra que essa redenção ocorra é preciso transformar a dor - que ora parece cãimbra, ora açoite, ora beliscão - em uma lembrança viva, porém distante. Deve ser como o Holocausto para os alemães, algo que não se pode esquecer para não viver outra vez.

22.7.09

Preservar-se

Os ambientalistas de plantão e o colega André Trigueiro que me desculpem, mas muito mais importante do que preservar a natureza, é preservar-se. Cada um cuidar de si é o primeiro passo para que todo mundo trate bem o planeta.

De qualquer forma, esse texto não pretende passear pela ecologia, a não ser que a harmonia psíquica possa ser considerada um ecossistema ameaçado. O tema é a autopreservação como valor quase extinto, como bioma em vias de desaparecer por completo.

Não sei se tem a ver com a chegada dos 30 (ou dos quase 31 anos), mas confesso que estou a cada dia mais rebelde. E entre as bandeiras da rebeldia balzaquiana está um sentimento incontrolável que algum desavisado poderia chamar de puro egoísmo.

Trata-se de uma certeza de que, primeiro, antes de tudo, preciso cuidar de mim. A minha barba precisa estar feita para que eu possa tratar do resto do mundo. Para isso, também é preciso ter me alimentado bem: nesse aspecto, beterrabas e cenouras ganham a relevância de assunto de segurança nacional. Em caso de despressurização, a própria companhia aérea ensina a colocar antes a máscara de oxigênio em si mesmo e só então ajudar outra pessoa.

Dirão os que já tem filhos que isso tudo é porque ainda não sou pai. Tá. Experimente não cuidar de si mesmo para ver quem é que vai cuidar do seu filho.

Será que a idade fez escorrer pelo ralo todo o meu senso de compaixão e solidariedade? Claro que não. O que veio com o tempo foi a descoberta de que é fundamental conhecer os próprios limites.

Não se trata de ser um sujeito limitado, sem calor na alma e sem perspectivas. Os limites individuais estão aí justamente para serem quebrados. Mas alto lá: quebrados por mim mesmo! O pulo do gato é saber quais são os limites para definir exatamente quais deles eu não quero ver ultrapassados pelo vizinho. É só conhecendo os meus limites que posso ser respeitado pelo outro.

A ideia não tem nada a ver com apologia da intransigência. Ceder é, sim, muito importante: é essencial para viver em sociedade, para amar e ser amado, mas é necessário aprender a ceder. Saber onde e quando ceder é mais uma daquelas difíceis lições que a escola não ensina.

Se o fundamental é estar bem consigo mesmo para poder amar o mundo, ser fiel a seus próprios princípios deveria ser a regra número um de qualquer indivíduo. O desafio é colocar isso em prática sem ser teimoso nem turrão. A campanha é esta mesma: autofidelidade já.

Fico me perguntando por que cargas d'água a gente se coloca em tantas enrascadas. Será que a gente precisa mesmo passar por tudo o que passa? Ou será que dá para fazer um filtro e despoluir um pouco? Por que é tão difícil dizer não, mesmo quando estamos diante daquele pedido mais inconveniente? Um sujeito folgado pede um absurdo e quem está do outro lado é obrigado a atender?

E os rancores, as frustrações? Será que não podemos simplesmente reciclar o desgosto? Por que sofremos tanto pelo que já sabemos que vai dar errado? Ou pelo que simplesmente dá errado, mas não depende nem nunca dependeu da gente? Se não havia nada que pudesse ser feito para evitar o desfecho trágico, por que sofrer tanto quando se consuma a tragédia?

O mundo está repleto de especialistas em sofrer porque o outro não fez o que cabia. Também há um amontoado de gente cujo maior medo é pronunciar a palavrinha não. Pedir desculpas e dizer "olha, desta vez não vai dar" não pode ser pior do que se afogar em chatices.

Devo admitir, passei a vida sendo um representante desse grupo. Mas estou aprendendo a me blindar. Tudo começa com pequenas coisas. São exercícios diários. Tá doente? Fique em casa. Fez errado? Volte e refaça. Não está afim? Avalie e, se aguentar o tranco, não faça _mas aprenda a também se comprometer quando preciso.

Desacelerar. Respirar. Repensar. Simplesmente não pensar.

Não se trata de fazer apenas o que dá na telha, sem concessões. Mas é chegada a hora de ser um pouco mais Alberto Caeiro. Um pouco mais zen. Um pouco mais nem. Um pouco mais além.

Não tem nada de revolucionário nisso... ou tem? O tempo das pessoas é agora. Os homens passam, as corporações ficam. Elas vão ficar de qualquer jeito. É por isso que o grande desafio está em fazer essa porção efêmera ser o mais maravilhosa possível.

Parece que ninguém se preocupa em agir para evitar sofrimentos desnecessários. Pois bem, a estratégia agora é sofrer apenas com o que for inevitável.

Pela lógica, isso deve nos deixar com muito mais tempo livre para aproveitar o que realmente importa na vida: o amor, a família, os amigos. À primeira vista, pode parecer uma enorme incoerência, mas só com uma certa dose de individualismo é possível ter uma vida cercada de calor humano. Tá aí, esse era o superaquecimento global que eu queria ver.

A erosão dos sentimentos é um processo bem mais rápido do que parece. Os amores, desprotegidos e desmatados, podem se desintegrar na rotina.

Faça sua parte. Não sacrifique sua alma.

Preserve a sua natureza.

4.6.09

Porre de pão de queijo

Alguém disse que a confiança não cresce como as unhas.

Às vezes por uma simples besteira, às vezes por algo sério. Não importa muito o motivo. Uma vez abalada a confiança doce, pura e original, parece que vai ficar para sempre aquela pulga atrás da orelha.

Aí não importam muito as palavras. Não há como convencer alguém a confiar de novo. Ou há?

Não sei, tenho dificuldades com isso. Sempre fico sem saber o que fazer, esteja de um lado ou de outro do balcão. O que é garantido é o lamento. A lágrima, o choro que vem e volta. 

É possível reconquistar a confiança no dia a dia? Gostaria de saber a receita para voltar a confiar e para ser merecedor de confiança, de novo. Pra ir buscar sabedoria no direito, me parece aquele tipo de prova impossível de ser produzida: como mostrar que vale a pena confiar?

"Perdi a confiança", dizem os olhos marejados. "Me prova, por favor, que eu posso confiar outra vez."

Quem pede a prova não é o desejo ardente por confiar de novo, mas a certeza de quem agora sabe (ou acha que sabe) que nunca deveria ter confiado antes. O pedido de prova é obra da desconfiança e só demonstra que a confiança já se foi totalmente. Confiança é, por si só, um valor que não necessita de prova. Existe por si mesma. Quem quer prova já prova que não confia.

Tá. Mas e se tudo isso não passar de mera retórica? Se sou eu o ofendido, já imagino que o outro não abre os arquivos, não mostra as provas, porque certamente tem muito mais a esconder. Será que então era tudo mentira? Não dá pra saber, e isso machuca. A gente também não sabia antes, a diferença é que agora dói. Muito.

Aí, enquanto não nos convencermos, com provas documentais, de que isso não era aquilo e aquilo não era aquilo outro, nada sai do lugar. O fato é que isso muitas vezes não acontece nunca. Pois vai ter sempre um arquivo ainda não aberto, ou algum outro que já foi apagado. E a gente joga fora um amor.

Sofrer por uma coisa séria, ok, alguém pisou na bola mesmo. Mas sofrer por uma coisa sem importância (o que pelo menos um dos lados sabe que não tem importância) pode ser ainda pior.

O fato é que não existe amor sem confiança. Ele morre, pouco depois dela, se nada for feito para salvá-lo do naufrágio. Também é verdade que ninguém tem culpa por deixar de confiar ao receber determinada informação até então desconhecida. A confiança não pergunta ao dono se é hora de fugir. Ela simplesmente sai, à francesa, sem dizer tchau.

Não sei qual o melhor bote salva-vidas. Não sei quanto pesa o amor e se ficariam demasiadamente justas as boias que usei na natação quando criança. Uma corda? Um balão?

De repente, parece que o amor vai sobreviver. Logo em seguida, parece que não. Orgulhosíssimo de sua independência, o amor recusa a respiração boca a boca, o toque, o carinho. Não ouve, nada do que pode ser dito interessa de fato. Nada vai ser escutado.

Dois pontos de vista diferentes, e nem confronto acontece. Estão todos tão orgulhosamente irredutíveis! 

- Me mostra, senão vou embora. 

- Me escuta e confia, ou então não faz sentido.  

Assunto sem fim, que talvez o tempo possa acalmar e trazer conforto. Ok, conforto. Mas e a prima nobre do conforto? Aquela tal de... confiança? 

- Se você disser que desconfia, amor, saiba que isso em mim provoca imensa dor.

- É que os desconfiados também têm um coração.

Nervoso, recorro ao Google. Fonte de sabedoria infinita (sic), guru, médico e psicólogo da pós-modernidade. 

Achei por bem visitar a wikipedia. Me agradou a ideia de um conceito coletivo de confiança.

Lá, encontrei que confiança é "o ato de deixar de analisar se um fato é ou não verdadeiro, entregando essa análise à fonte de onde provém a informação".

A navegação continua, vira uma busca por desconfiança. E me parece que o assunto nunca esteve tão na moda.



Entre Obamas e Obinas, como mineiro que não bebe pinga, o que me resta é tomar um porre de pão de queijo.

25.3.09

Tinha uma amora no meio do caminho

Quantos segredos moram naquilo que não é dito? Quantos detalhes se escondem no que não é percebido?

Na esquina da minha casa, mora, lânguida e faceira, sem nunca haver se escondido de mim nem de ninguém, uma amoreira. Só fui percebê-la há poucos dias, ao encontrar a esquina repleta de amoras espalhadas pelo chão.

Já tinha notado que a esquina vivia cheia de inúmeros pontinhos pretos. Por fim notei que não eram assim tão pretos, estavam mais puxados para o violeta. E, bom, também que não eram bem pontinhos, pareciam mais amoras mesmo.

Enfim, foi uma gostosa surpresa descobrir que era isso mesmo. Eram amoras!

Roubei uma da árvore. Comi. Estava meio doce, meio azeda - bah, gosto de amora.

E segui para o trabalho pensando como é que algo está tão perto e demoramos a perceber. A coisa está ali e não damos nada por ela.

Anteontem uma bala veio se perder a duas quadras da minha casa. A duas quadras da amoreira. Essa loucura do Rio, guerra de traficantes.

Longe de mim querer comparar balas de fuzil com amoras, mas devo dizer que andam me interessando bem mais as amoras.

As balas, impossível não tomar conhecimento delas. Fazem estrondo. A imprensa toda grita e indica. Me preocupo com elas, claro. Quem não se preocupa?

O que falta é quem se preocupe com as amoras! Não que elas se importem, não mesmo. Mas porque desse jeito ficamos somente com a porção ruim do mundo, com as atenções totalmente voltadas para a rotina, para o mesmo cotidiano de todo dia e, de vez em quando, para alguma tragédia que quebra a mesmice, como uma bala perdida.

Não quero amoras nas primeiras páginas dos jornais nem ouso sugerir que a imprensa busque apenas boas notícias. O IG até tentou fazer um dia só de "notícias positivas" no portal, mas era justamente 11 de Setembro de 2001 e foi tudo para o beleléu.

O melhor das amoras é que elas não querem mídia. Elas são simples e nessa simplicidade se esconde sua doçura. Elas só desejam ser notadas - e degustadas - por aqueles que já estão por perto e seguem confundindo amoras roxas com pontinhos pretos.

Quantos gestos de amor deixamos de notar todos os dias? Quanto do mundo e dos outros eu mesmo deixo de perceber? E quanto de mim mesmo deixa de ser percebido?

A única certeza é que, além de balas, não faltam amoras perdidas. Amoras e amores.

10.3.09

Ensaio sobre o estrabismo

As aparências encantam. Mesmo que não sejam lá as "boas aparências" exigidas pelas lentes hollywoodianas ou pelos anúncios de emprego. O que importa é agradar o freguês.

Dizer que quem ama o feio bonito lhe parece é das coisas mais preconceituosas do mundo. Primeiro porque pressupõe que exista uma beleza correta e perfeita. Não há; tudo não passa de ponto de vista.

O que pode ser supersexy pra mim pode ser a coisa mais mais corta-clima pra você. E, depois, porque o mais bonito é amar alguém por inteiro. O ideal não é amar alguém apesar de seus defeitos, o paraíso de fato é amar alguém justamente por causa de seus defeitos.

E eu me arrisco a dizer, virginiano que sou, que esse é o ponto máximo do amor. Porque o virginiano, mais do que todos, está sempre tentando melhorar o mundo. OK, você pode dizer: "Que cara chato, mala, não deixa passar nada, sempre vê o lado negativo das coisas."

Mas eu garanto que não é nada disso. Eu, por exemplo, sou um otimista: se falo que falta algo, é porque acredito no mundo e o amo tanto que acho que vale a pena gastar saliva para melhorá-lo.

- "Ah, eu te amo! Você tem os defeitos que eu sempre sonhei!"

Imagine. Essa, sim, é a perfeição absoluta. A certeza, serena, de que aqueles defeitos você pode suportar. Trata-se de uma garantia de amor incondicional e duradouro.

Pois bem, outro dia um amigo me revelou uma predileção pelo estrabismo. Um fetichezinho besta. "Não pode ser uma coisa exagerada", explicou ele. Mas um certo grau de estrabismo lhe atrai. É fofo. Um dentinho torto também serve, complementou.

OK, aceitemos, pode também ser um dentinho torto. Se possível, encavalado. Mas só um. Não serve a arcada inteira.

O amigo é exigente. E o controle de qualidade passa, veja só, até pela feiura. Doses homeopáticas de feiura sob medida - e ele chama isso de "charme".

Ah, mas que mal há nisso? O que importa é olhar pra alguém e sentir essa certeza - estranha e doce - de que tudo está exatamente no seu devido lugar.

Fico pensando se não é por isso que eu amo tanto o Rio. E justamente porque amo, vejo (e aponto) tão virginianamente os defeitos da cidade. Me perguntaram outro dia: "Você gosta mesmo do Rio?! Você só fala mal da cidade!"

Ai, Deus, como explicar que, se não amasse, não falaria. Não reclamaria. Não perderia o meu tempo tentando entender, tentando sugerir melhorias. O mesmo problema eu tenho no amor. No amor a dois, quero dizer. Eu sempre enxergo os cílios fora do lugar, as roupas amassadas, as unhas malfeitas. E amo apesar disso, amo também por isso. Talvez exatamente por isso.

Um ou outro pode dizer que o estrábico sou eu. Sou eu quem tem a visão turva, que enxergo torto, vendo problema em todo lado. Mas "ojo", como dizem os argentinos, não são problemas!

Se para quem ouve pode parecer uma simples crítica, para mim não passa de uma pedrinha a mais pelo caminho, um tijolo a mais na construção. Sinal de que cuido, me importo, amo. Sinal de que me interesso e de que presto atenção em todos os detalhes, em tudo o que diz respeito ao ser ou ao objeto amado.

Tá. Eu reconheço que pode parecer uma maneira bastante curiosa de amar. Mas esse é um tipo de amor intenso e real, não uma criação de pura fantasia. Um amor pé no chão. Seja um chão de estrelas, de pedrinhas de brilhante, de barro, de areia fina, de mijo pelas ruas, não importa.

Um amor verdadeiro é um pé de moleque, não o doce, mas o do menino que não tem medo de pisar onde quer que seja preciso. Quer coisa mais linda do que avistar uma poça d'água no caminho, encará-la, e depois pisar bem no meio dela, de propósito, por puro prazer?

Dar um passo por impulso pode ser bonito. Mas saltar mesmo depois de analisar todos os riscos, e defeitos, e problemas, e possibilidades... ah, isso sim merece admiração!

Meu plano é este: olho sempre por onde piso e sigo em frente quando vale a pena.

Se acho que vale a pena, vou pensando em como melhorar o caminho, botar umas flores por aqui, dar uma capinada por ali. Hahaha. Mas são detalhes, pequenos charmes, pois o caminho já foi escolhido. O passo é firme. E não imagino um pé melhor para terminar uma notícia.

5.11.08

O que Lula ensina sobre Obama

O clima de otimismo gerado pela eleição de um negro para a Casa Branca lembra um episódio da nossa recente história tupiniquim: a chegada de um torneiro mecânico ao Planalto. De novo, a esperança venceu o medo, como nunca antes na história deste planeta.

Não há como negar o simbolismo e a importância histórica do feito de Barack Hussein Obama. Mas, ao redor do mundo, o tom dos jornais de hoje, entre eles o New York Times, parece tão ingênuo como o que sucedeu a vitória de Lula aqui no Brasil.

Só que agora a coisa vem em proporções mundiais. A avó africana de Obama pulando enrolada na bandeira americana e contando que sacrificou algumas vacas para comemorar. Corta para Oprah Winfrey emocionadíssima em Chicago e pessoas se abraçando na Europa.

O Wall Street Journal disse que a vitória foi "épica". Nunca elegemos um negro, mas, como disse um amigo, não deixa de ser a "America" copiando o Brasil. Outro amigo jornalista brinca: é a supremacia do jazz, na Casa Branca e na Fórmula 1.

Tá, eu também achei bonito a outra avó do Obama ter votado pelo correio antes de morrer de câncer na véspera da eleição. Eu também me emocionei quando anunciaram a vitória e meus olhos se encheram d'água com a repetição em credo do "Yes, we can", que parece uma resposta, ainda que tardia,  ao "I have a dream".

É empolgante ver um negro chegar lá e, meu Deus, como é bom acreditar em algo! Acreditar que é possível, que tudo vai melhorar, que o mundo pode ser mais justo. É quase uma necessidade básica acreditar nesses ideais e nos esforçamos pra isso. 

O grande herói do dia é povo americano. O mundo duvidava que os americanos pudessem tanto. Tio Sam se superou e mandou às favas o maldito efeito Bradley. OK, mais uma página na história. Mas nada justifica achar que o mundo mudou completamente hoje.

Qual será a primeira decepção com Obama? Logo de cara, já herda duas guerras e a crise econômica internacional. Se um atentado em breve não o transformar em santo, resta somente esperar para ver onde o democrata vai falhar.

Hoje, porém, Barack Obama está coberto - e protegido - pelo manto do Salvador da Pátria. No caso dele, quase um cobertor de Salvador do Mundo. Será que vale a pena ver de novo essa novela?



Claro que Barack não tem nada de ingênuo; pois é, Luiz Inácio também não. Mas não se trata de dizer que Obama e Lula são parecidos _semelhante mesmo é o tipo de fé que depositamos neles.
 
Também não se trata de torcer contra nem de minimizar a conquista. Mas é que já aprendemos isso, não? A decepção com Lula deve ter nos ensinado algo! E os americanos estão prestes a ter essa mesma e duríssima lição.

Há muitos motivos para comemorar, sim, mas o ideal seria o mundo inteiro festejar mantendo os olhos bem abertos desde o início, sem deixar o sonho embaçar a vista.

É incrível como ainda não aprendemos a ver além da cor da pele. Envoltos no mais sutil dos preconceitos, nos enquecemos de que, antes de qualquer coisa, Obama é um homem. E os homens, todos eles, torneiros mecânicos ou não, erram.


Discurso de Barack Obama em Chicago, logo após o anúncio do resultado da eleição


If there is anyone out there who still doubts that America is a place where all things are possible; who still wonders if the dream of our founders is alive in our time; who still questions the power of our democracy, tonight is your answer.

It’s the answer told by lines that stretched around schools and churches in numbers this nation has never seen; by people who waited three hours and four hours, many for the very first time in their lives, because they believed that this time must be different; that their voice could be that difference.

It’s the answer spoken by young and old, rich and poor, Democrat and Republican, black, white, Latino, Asian, Native American, gay, straight, disabled and not disabled – Americans who sent a message to the world that we have never been a collection of Red States and Blue States: we are, and always will be, the United States of America.

It’s the answer that led those who have been told for so long by so many to be cynical, and fearful, and doubtful of what we can achieve to put their hands on the arc of history and bend it once more toward the hope of a better day.

It’s been a long time coming, but tonight, because of what we did on this day, in this election, at this defining moment, change has come to America.

I just received a very gracious call from Senator McCain. He fought long and hard in this campaign, and he’s fought even longer and harder for the country he loves. He has endured sacrifices for America that most of us cannot begin to imagine, and we are better off for the service rendered by this brave and selfless leader. I congratulate him and Governor Palin for all they have achieved, and I look forward to working with them to renew this nation’s promise in the months ahead.

I want to thank my partner in this journey, a man who campaigned from his heart and spoke for the men and women he grew up with on the streets of Scranton and rode with on that train home to Delaware, the Vice President-elect of the United States, Joe Biden.

I would not be standing here tonight without the unyielding support of my best friend for the last sixteen years, the rock of our family and the love of my life, our nation’s next First Lady, Michelle Obama. Sasha and Malia, I love you both so much, and you have earned the new puppy that’s coming with us to the White House. And while she’s no longer with us, I know my grandmother is watching, along with the family that made me who I am. I miss them tonight, and know that my debt to them is beyond measure.

To my campaign manager David Plouffe, my chief strategist David Axelrod, and the best campaign team ever assembled in the history of politics – you made this happen, and I am forever grateful for what you’ve sacrificed to get it done.

But above all, I will never forget who this victory truly belongs to – it belongs to you.

I was never the likeliest candidate for this office. We didn’t start with much money or many endorsements. Our campaign was not hatched in the halls of Washington – it began in the backyards of Des Moines and the living rooms of Concord and the front porches of Charleston.

It was built by working men and women who dug into what little savings they had to give five dollars and ten dollars and twenty dollars to this cause. It grew strength from the young people who rejected the myth of their generation’s apathy; who left their homes and their families for jobs that offered little pay and less sleep; from the not-so-young people who braved the bitter cold and scorching heat to knock on the doors of perfect strangers; from the millions of Americans who volunteered, and organized, and proved that more than two centuries later, a government of the people, by the people and for the people has not perished from this Earth. This is your victory.

I know you didn’t do this just to win an election and I know you didn’t do it for me. You did it because you understand the enormity of the task that lies ahead. For even as we celebrate tonight, we know the challenges that tomorrow will bring are the greatest of our lifetime – two wars, a planet in peril, the worst financial crisis in a century. Even as we stand here tonight, we know there are brave Americans waking up in the deserts of Iraq and the mountains of Afghanistan to risk their lives for us. There are mothers and fathers who will lie awake after their children fall asleep and wonder how they’ll make the mortgage, or pay their doctor’s bills, or save enough for college. There is new energy to harness and new jobs to be created; new schools to build and threats to meet and alliances to repair.

The road ahead will be long. Our climb will be steep. We may not get there in one year or even one term, but America – I have never been more hopeful than I am tonight that we will get there. I promise you – we as a people will get there.

There will be setbacks and false starts. There are many who won’t agree with every decision or policy I make as President, and we know that government can’t solve every problem. But I will always be honest with you about the challenges we face. I will listen to you, especially when we disagree. And above all, I will ask you join in the work of remaking this nation the only way it’s been done in America for two-hundred and twenty-one years – block by block, brick by brick, calloused hand by calloused hand.

What began twenty-one months ago in the depths of winter must not end on this autumn night. This victory alone is not the change we seek – it is only the chance for us to make that change. And that cannot happen if we go back to the way things were. It cannot happen without you.

So let us summon a new spirit of patriotism; of service and responsibility where each of us resolves to pitch in and work harder and look after not only ourselves, but each other. Let us remember that if this financial crisis taught us anything, it’s that we cannot have a thriving Wall Street while Main Street suffers – in this country, we rise or fall as one nation; as one people.

Let us resist the temptation to fall back on the same partisanship and pettiness and immaturity that has poisoned our politics for so long. Let us remember that it was a man from this state who first carried the banner of the Republican Party to the White House – a party founded on the values of self-reliance, individual liberty, and national unity. Those are values we all share, and while the Democratic Party has won a great victory tonight, we do so with a measure of humility and determination to heal the divides that have held back our progress. As Lincoln said to a nation far more divided than ours, “We are not enemies, but friends…though passion may have strained it must not break our bonds of affection.” And to those Americans whose support I have yet to earn – I may not have won your vote, but I hear your voices, I need your help, and I will be your President too.

And to all those watching tonight from beyond our shores, from parliaments and palaces to those who are huddled around radios in the forgotten corners of our world – our stories are singular, but our destiny is shared, and a new dawn of American leadership is at hand. To those who would tear this world down – we will defeat you. To those who seek peace and security – we support you. And to all those who have wondered if America’s beacon still burns as bright – tonight we proved once more that the true strength of our nation comes not from our the might of our arms or the scale of our wealth, but from the enduring power of our ideals: democracy, liberty, opportunity, and unyielding hope.

For that is the true genius of America – that America can change. Our union can be perfected. And what we have already achieved gives us hope for what we can and must achieve tomorrow.

This election had many firsts and many stories that will be told for generations. But one that’s on my mind tonight is about a woman who cast her ballot in Atlanta. She’s a lot like the millions of others who stood in line to make their voice heard in this election except for one thing – Ann Nixon Cooper is 106 years old.

She was born just a generation past slavery; a time when there were no cars on the road or planes in the sky; when someone like her couldn’t vote for two reasons – because she was a woman and because of the color of her skin.

And tonight, I think about all that she’s seen throughout her century in America – the heartache and the hope; the struggle and the progress; the times we were told that we can’t, and the people who pressed on with that American creed: Yes we can.

At a time when women’s voices were silenced and their hopes dismissed, she lived to see them stand up and speak out and reach for the ballot. Yes we can.

When there was despair in the dust bowl and depression across the land, she saw a nation conquer fear itself with a New Deal, new jobs and a new sense of common purpose. Yes we can.

When the bombs fell on our harbor and tyranny threatened the world, she was there to witness a generation rise to greatness and a democracy was saved. Yes we can.

She was there for the buses in Montgomery, the hoses in Birmingham, a bridge in Selma, and a preacher from Atlanta who told a people that “We Shall Overcome.” Yes we can.

A man touched down on the moon, a wall came down in Berlin, a world was connected by our own science and imagination. And this year, in this election, she touched her finger to a screen, and cast her vote, because after 106 years in America, through the best of times and the darkest of hours, she knows how America can change. Yes we can.

America, we have come so far. We have seen so much. But there is so much more to do. So tonight, let us ask ourselves – if our children should live to see the next century; if my daughters should be so lucky to live as long as Ann Nixon Cooper, what change will they see? What progress will we have made?

This is our chance to answer that call. This is our moment. This is our time – to put our people back to work and open doors of opportunity for our kids; to restore prosperity and promote the cause of peace; to reclaim the American Dream and reaffirm that fundamental truth – that out of many, we are one; that while we breathe, we hope, and where we are met with cynicism, and doubt, and those who tell us that we can’t, we will respond with that timeless creed that sums up the spirit of a people:

Yes We Can. Thank you, God bless you, and may God Bless the United States of America.

Chicago, November 5th.

















  

 

 Discurso de Lula em São Paulo, logo após o anúncio do resultado das eleições em 2002 



Ontem, o Brasil votou para mudar. A esperança venceu o medo e o eleitorado decidiu por um novo caminho para o país. Foi um belo espetáculo democrático que demos ao mundo. Um dos maiores povos do planeta resolveu, de modo pacífico e tranqüilo, traçar um rumo diferente para si.

As eleições que acabamos de realizar foram, acima de tudo, uma vitória da sociedade brasileira e de suas instituições democráticas, uma vez que elas trouxeram a alternância no poder, sem a qual a democracia perde a sua essência. 

Tivemos um processo eleitoral de excelente qualidade, no qual os cidadãos e as cidadãs exigiram e obtiveram um debate limpo, franco e qualificado sobre os desafios imediatos e históricos do nosso país. Contribuíram para isso a atitude da justiça eleitoral e do presidente da República, que cumpriram de maneira equilibrada o seu papel constitucional. 

A grande virtude da democracia é que ela permite ao povo mudar de horizonte quando ele acha necessário. A nossa vitória significa a escolha de um projeto alternativo e o início de um novo ciclo histórico para o Brasil. 

A nossa chegada à Presidência da República é fruto de um vasto esforço coletivo, realizado, ao longo de décadas, por inúmeros democratas e lutadores sociais. Muitos dos quais, infelizmente, não puderam ver a sociedade brasileira, e em especial as camadas oprimidas, colherem os frutos de seu árduo trabalho, de sua dedicação e sacrifício militante.

Estejam onde estiverem, os companheiros e as companheiras que a morte colheu antes desta hora, saibam que somos herdeiros e portadores do seu legado de dignidade humana, de integridade pessoal, de amor pelo Brasil, e de paixão pela justiça. Saibam que a obra de vocês segue conosco, como se vivos estivessem, e é fonte de inspiração para nós que seguimos travando o bom combate. O combate em favor dos excluídos e dos discriminados. O combate em favor dos desamparados, dos humilhados e dos ofendidos.

Quero homenagear aqui os militantes anônimos. Aqueles que deram seu trabalho e dedicação, ao longo de todos esses anos, para que chegássemos aonde chegamos. Nas mais longínquas regiões do país, eles jamais esmoreceram. Aprenderam, como eu, com as derrotas. Tornaram-se mais competentes e eficazes na defesa de um país soberano e justo. 

Celebro hoje aqueles que, nos momentos difíceis do passado, quando a nossa causa de um país justo e solidário parecia inviável, não caíram na tentação da indiferença, não cederam ao egoísmo e ao individualismo exacerbado. Todos aqueles que conservaram intacta a sua capacidade de indignar-se perante o sofrimento alheio. Souberam resistir, mantendo acesa a chama da solidariedade social. Todos aqueles que não desertaram do nosso sonho, que às vezes sozinhos nas praças deste imenso Brasil ergueram bem alto a bandeira estrelada da esperança.

Mas esta vitória é, sobretudo, de milhares, quem sabe milhões, de pessoas sem filiação partidária que se engajaram nessa causa. É uma conquista das classes populares, das classes médias, de parcelas importantes do empresariado, dos movimentos sociais e das entidades sindicais que compreenderam a necessidade de combater a pobreza e defender o interesse nacional.

Para alcançar o resultado de ontem, foi fundamental que o PT, um partido de esquerda, tenha sabido construir uma ampla aliança com outras forças partidárias. O PL, o PCdoB, o PMN e o PCB deram uma contribuição inestimável desde o primeiro turno. A eles, vieram somar-se, no segundo turno, o PSB, o PPS, o PDT, o PV, o PTB, o PHS, o PSDC e o PGT. Além disso, ao longo da campanha, contamos com o apoio de setores importantes de outros partidos identificados com o nosso programa de mudanças para o Brasil. Em especial, quero destacar o apoio dos ex-presidentes José Sarney e Itamar Franco e, no segundo turno, o precioso apoio que recebi de Anthony Garotinho e Ciro Gomes. 

Não há dúvida de que a maioria da sociedade votou pela adoção de outro ideal de país, em que todos tenham os seus direitos básicos assegurados. A maioria da sociedade brasileira votou pela adoção de outro modelo econômico e social, capaz de assegurar a retomada do crescimento, do desenvolvimento econômico com geração de emprego e distribuição de renda.

O povo brasileiro sabe, entretanto, que aquilo que se desfez ou se deixou de fazer na última década não pode ser resolvido num passe de mágica. Assim como carências históricas da população trabalhadora não podem ser superadas da noite para o dia. Não há solução milagrosa para tamanha dívida social, agravada no último período. Mas é possível e necessário começar, desde o primeiro dia de governo. 

Vamos enfrentar a atual vulnerabilidade externa da economia brasileira fator crucial na turbulência financeira dos últimos meses de forma segura. Como dissemos na campanha, nosso governo vai honrar os contratos estabelecidos pelo governo, não vai descuidar do controle da inflação e manterá como sempre ocorreu nos governos do PT uma postura de responsabilidade fiscal. Essa é a razão para dizer com clareza a todos os brasileiros: a dura travessia que o Brasil estará enfrentando exigirá austeridade no uso do dinheiro público e combate implacável à corrupção. 

Mas mesmo com as restrições orçamentárias, impostas pela difícil situação financeira que vamos herdar, estamos convencidos que, desde o primeiro dia da nova gestão, é possível agir com criatividade e determinação na área social. Vamos aplacar a fome, gerar empregos, atacar o crime, combater a corrupção e criar melhores condições de estudo para a população de baixa renda desde o momento inicial de meu governo. 

Meu primeiro ano de mandato terá o selo do combate à fome. Um apelo à solidariedade para com os brasileiros que não têm o que comer. Para tanto, anuncio a criação de uma Secretaria de Emergência Social, com verbas e poderes para iniciar, já em janeiro, o combate ao flagelo da fome. Estou seguro de que esse é, hoje, o clamor mais forte do conjunto da sociedade. Se ao final do meu mandato, cada brasileiro puder se alimentar três vezes ao dia, terei realizado a missão de minha vida.

Como disse ao lançar meu Programa de Governo, gerar empregos será minha obsessão. Para tanto, vamos mobilizar imediatamente os recursos públicos disponíveis nos bancos oficiais e nas parcerias com a iniciativa privada para a ativação do setor da construção civil e das obras de saneamento. Além de gerar empregos, tal medida ajudará à retomada gradual do crescimento sustentado.

O país tem acompanhado com preocupação a crise financeira internacional e suas implicações na situação brasileira. Em especial, a instabilidade na taxa de câmbio e a pressão inflacionária dela decorrente. 

Porém, com toda a adversidade internacional, estamos com superávit comercial de mais de 10 bilhões de dólares neste ano. Resultado que pode ser ampliado já em 2003 com uma política ofensiva de exportações, incorporando mais valor agregado aos nossos produtos, aprofundando a competitividade da nossa economia, bem como promovendo uma criteriosa política de substituição competitiva de importações. 

O Brasil fará a sua parte para superar a crise, mas é essencial que além do apoio de organismos multilaterais, como o FMI, o BID e o BIRD, se restabeleçam as linhas de financiamento para as empresas e para o comércio internacional. Igualmente relevante é avançar nas negociações comerciais internacionais, nas quais os países ricos efetivamente retirem as barreiras protecionistas e os subsídios que penalizam as nossas exportações, principalmente na agricultura.

Nos últimos três anos, com o fim da âncora cambial, aumentamos em mais de 20 milhões de toneladas a nossa safra agrícola. Temos imenso potencial nesse setor para desencadear um amplo programa de combate à fome e exportarmos alimentos que continuam encontrando no protecionismo injusto das grandes potências econômicas um obstáculo que não pouparemos esforços para remover.

O trabalho é o caminho de nosso desenvolvimento, da superação dessa herança histórica de desigualdade e exclusão social. Queremos constituir um amplo mercado de consumo de massas que dê segurança aos investimentos das empresas, atraia investimentos produtivos internacionais e represente um novo modelo de desenvolvimento e compatibilize distribuição de renda e crescimento econômico. 

A construção dessa nova perspectiva de crescimento sustentado e de geração de emprego exigirá a ampliação e o barateamento do crédito, o fomento ao mercado de capitais e um cuidadoso investimento em ciência e tecnologia. Exigirá também uma inversão de prioridades no financiamento e no gasto público, valorizando a agricultura familiar, o cooperativismo, as micro e pequenas empresas e as diversas formas de economia solidária. 

O Congresso Nacional tem uma imensa responsabilidade na construção dessas mudanças que irão promover a inclusão social e o crescimento sustentado. Por isso, estarei pessoalmente empenhado em encaminhar para o Congresso as grandes reformas que a sociedade reclama: a reforma da previdência social, a reforma tributária, a reforma da legislação trabalhista e da estrutura sindical, a reforma agrária e a reforma política. 

O mundo está atento a esta demonstração espetacular de democracia e participação popular ocorrida na eleição de ontem. É uma boa hora para reafirmar um compromisso de defesa corajosa de nossa soberania regional. E o faremos buscando construir uma cultura de paz entre as nações, aprofundando a integração econômica e comercial entre os países, resgatando e ampliando o Mercosul como instrumento de integração nacional e implementando uma negociação soberana frente à proposta da ALCA. Vamos fomentar os acordos comerciais bilaterais e lutar para que uma nova ordem econômica internacional diminua as injustiças, a distância crescente entre países ricos e pobres, bem como a instabilidade financeira internacional que tantos prejuízos tem imposto aos países em desenvolvimento.

Nosso governo será um guardião da Amazônia e da sua biodiversidade. Nosso programa de desenvolvimento, em especial para essa região, será marcada pela responsabilidade ambiental. 
Queremos impulsionar todas as formas de integração da América Latina que fortaleçam a nossa identidade histórica, social e cultural. Particularmente relevante é buscar parcerias que permitam um combate implacável ao narcotráfico que alicia uma parte da juventude e alimenta o crime organizado.

Nosso governo respeitará e procurará fortalecer os organismos internacionais, em particular a ONU e os acordos internacionais relevantes, como o protocolo de Kyoto, e o Tribunal Penal Internacional, bem como os acordos de não proliferação de armas nucleares e químicas. Estimularemos a idéia de uma globalização solidária e humanista, na qual os povos dos países pobres possam reverter essa estrutura internacional injusta e excludente.

Não vou decepcionar o povo brasileiro. A manifestação que brotou ontem do fundo da alma dos meus compatriotas será a minha a inspiração e a minha bússola. Serei, a partir de 1º de janeiro, o presidente de todos os brasileiros e brasileiras, porque sei que é isso que esperam os eleitores que me confiaram o seu voto.

Vivemos um momento decisivo e único para as mudanças que todos desejamos. Elas virão sem surpresas e sobressaltos. Meu governo terá a marca do entendimento e da negociação. Da firmeza e da paciência. Temos plena consciência que a grandeza dessa tarefa supera os limites de um partido. Esse foi o sentido do esforço que fizemos desde a campanha para reunir sindicalistas, ONGs e empresários de todos os segmentos numa ação comum pelo país.

Continuaremos a ter atuação decidida no sentido de unir as diversas forças políticas e sociais para construir uma nação que beneficie o conjunto do povo. Vamos promover um Pacto Nacional pelo Brasil, formalizar o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, e escolher os melhores quadros do Brasil para fazer parte de um governo amplo, que permita iniciar o resgate das dívidas sociais seculares. Isso não se fará sem a ativa participação de todas as forças vivas do Brasil, trabalhadores e empresários, homens e mulheres de bem.

Meu coração bate forte. Sei que estou sintonizado com a esperança de milhões e milhões de outros corações. Estou otimista. Sinto que um novo Brasil está nascendo. 

São Paulo, 28 de outubro de 2002"

 

 Com agradecimento especial ao Rafael
 

21.10.08

A voz do morro

"Eu sou o samba..." Calma, calma, não é verso de Zé Keti - é discurso de político. 

Enquanto os candidatos à prefeitura de São Paulo discutem o passado (administrativo e sexual) um do outro, aqui no Rio algo bem mais importante é saber quem está com o samba.

Propaganda de Fernando Gabeira, cujo jingle aparece nas versões rap ou pagode, mostra a marrom Alcione. "O mundo do samba está com Gabeira!", diz a cantora. 

A campanha do outro candidato, Eduardo Paes, discorda. Mostra Nelson Sargento, Dudu Nobre, Dicró, Delcio Carvalho, Noca da Portela e Tia Doca. E o jingle do peemedebista é cantado por Preto Jóia, puxador de samba.

Músico por músico, a propaganda de Gabeira tem Caetano Veloso, Adriana Calcanhotto, Paula Toller, Fernanda Abreu, Moraes Moreira, Luiz Melodia, João Bosco, Paulinho Moska, Frejat, Edson Cordeiro... tem até MC Marcinho. E também duas divas da delicadeza do samba: Teresa Cristina e Mart'nália. De novo, lembro: Hollywood é aqui. É tanta nota e tanto timbre que, no fim, a surpresa maior não vai ser quem vai ganhar o segundo turno; o que todo mundo quer saber é qual candidato vai lançar o melhor CD.

O apoio do "samba" se tornou muito mais importante depois da escorregada de Gabeira, que disse em uma conversa ao telefone que foi ouvida por jornalistas que uma vereadora tucana campeã de votos no Rio tinha uma "visão suburbana" sobre um determinado tema.

O candidato pediu desculpas públicas à vereadora, mas reclamou sobretudo de invasão de privacidade. Ficou chovendo no molhado. O nome disso, meu caro, é interesse público. O importante é saber o que o candidato é de verdade e não conhecer somente o personagem que ele quer interpretar.

Paes, de seu lado, igualmente filhote da zona sul, aproveitou o deslize para se mostrar como representante da periferia. Raciocínio simples: se o outro falou mal de você, vote em mim, mesmo que eu não faça nada de bom pra você. "Suburbano com orgulho vota Paes." A idéia é colar de vez em Gabeira o rótulo de preconceituoso e pouco conhecedor das áreas menos favorecidas da Cidade Maravilhosa. 

Gabeira reage com a voz mole que lembra Ronaldo Ésper. Fala de campanha limpa, sem ataques, sem "dividir o Rio". Seu jingle agora cita com destaque bairros da zona norte e da zona oeste carioca. Andaraí! Grajaú! Bangu!

A campanha do PV também mostra Fernanda Abreu criticando a rixa histórica existente entre o morro e o asfalto e pintando um Gabeira conciliador e contra o preconceito. 

Ocorre que a busca pelos sambistas na reta final da campanha não passa de puro preconceito. O samba, que fala no coração do povo, vira a língua dos candidatos e do marqueteiros da zona sul, área nobre da cidade, para conversar com o subúrbio. É como se alguém tirasse da manga a última carta para ser compreendido pela boiada. "É, vamos ter de apelar para o samba!"  

O samba, voz legítima do morro, transvestido de voz para falar com o morro, fica forçado, perde o charme. É a mesma falsidade do candidato que toma um cafezinho a cada esquina e a mesma falta de limite que leva o político a perder a noção de tudo, chegando ao extremo de cumprimentar até manequim de loja, como fez a paulistana Marta. 

Sempre achei ridículo usar símbolos nacionais e regionais para angariar a simpatia do eleitor. FHC, por exemplo, comeu buchada de bode e montou um jegue em 94, quem não se lembra? Geraldo Alckmin, em 2006, repetiu o gesto: comeu buchada e montou um jegue na Paraíba. Depois, se disse "chicleteiro". Estava onde? Na Bahia, claro. 

Deus do céu, tudo tão forçado! Alguém imagina Alckmin pulando atrás do trio elétrico?

Fico pensando como fica a cabeça de quem mora na zona norte do Rio, é chamado de "paraíba" e tem, sim, sua escola de samba como a coisa mais importante do mundo.

Quando vejo Gabeira e Paes tentando se aproximar do "povo" com o intermédio dos sambistas, o que me vem à mente é a constrangedora imagem do Príncipe Charles, da Inglaterra, tentando sambar em sua visita ao Brasil.


Diga-me com quem sambas e te direi quem és.



7.10.08

Hollywood é aqui

No Rio, todo mundo sonha ser artista. Ou, pior ainda, todo mundo se diz artista. Todo mundo representa, desfila, canta, dança, pinta, toca alguma coisa... ou até mesmo escreve. Faz parte, digamos, da alma da cidade. É preciso ter algum talento, senão você não é ninguém.

Nesse departamento, todo mundo se empenha. Ô, povo esforçado! Mas o objetivo é nobre: a idéia é se esforçar agora para ganhar fama e depois nunca mais precisar fazer nada na vida.

Claro que todo esse movimento se concentra em buscar a estradinha de tijolos dourados _mas, de preferência, a estradinha que corta caminho, aquela que leva ao atalho para o caminho mais fácil. Pouco do tempo dedicado à "carreira" é efetivamente gasto com os estudos. 

Para tirar a prova, basta uma conversa de cinco minutos! Entre tantos que se dizem atores, poucos se preparam como deveriam. Poucos saberiam responder a perguntas simples relacionadas à sua tão amada arte, como o que diabos foi o teatro elisabetano, por exemplo.

 

Bom, uma coisa é verdade: ninguém é obrigado a ter talento e, aliás, triste realidade, a maioria não tem mesmo. Mas... e então? Como sobreviver nessa selva hollywoodiana sem isso?

Pois bem, você pode até não ter nenhum talento, mas aí se torna obrigatório ser o melhor amigo de alguma celebridade. Sim, pode ser até uma celebridade instantânea. Uma celebridade B, que seja. Tá, ex-BBB também serve (é três vezes B, não é?). Dessa maneira, seguindo bem a receita, todas as portas estarão abertas pra você. Sempre haverá sorrisos.

Não se engane, meu caro, Hollywood é aqui! Sim, no Rio. Há um famoso em cada esquina. Por isso deslumbrar-se é muito fácil. Bem mais fácil que trabalhar oito horas por dia.

Na cidade-sede da Corte, o que vale é ser nobre. Isso, no mundo moderno, significa aparecer na TV e nas revistas de fofoca, seja porque você é imortal da Academia Brasileira de Letras, modelo/ator, empresário que namora modelos/atrizes, seja porque você é jogador de futebol ou travesti que fez escândalo com jogador de futebol. Mas, se não rolar tanta nobreza, o jeito é mesmo se tornar "amigo do rei". Explico: fazer de alguém da listinha anterior o seu amigo número um, inseparável, companheiro até de biriba.

Essa relação é importantíssima: pode custar a sua vida! Ser amigo do rei, em cada contexto, será fundamental na hora de ir à uma festa, tomar um chope, conseguir um protocolo, concluir um projeto no trabalho, receber atendimento médico decente ou obter informações de uma assessoria de imprensa.

Portanto, o mais importante é fazer tudo que estiver ao alcance para se aproximar de um VIP.




Tomemos as boates como exemplo. Todas elas têm listas VIP abarrotadas. Quase todo mundo é VIP e entra de graça. Se não é VIP, está na chamada "lista amiga" e recebe desconto. Nessa todo mundo pode estar, basta enviar um e-mail. É um jeito de, ao menos, sentir-se amigo do rei. Do lado de fora, que piada, a fila VIP muitas vezes é maior que a da clientela que paga pra entrar.

E nos teatros? Divida a platéia entre pagantes e não-pagantes, e a surpresa será geral. Boa parte será de convidados: amigos dos atores, do diretor, do autor, do produtor, do iluminador, do faxineiro da coxia... Como é que o espetáculo se paga ninguém sabe, mas pelo menos fica garantida a claque. Palmas, palmas, mesmo que o ator seja ruim! O show não pode parar.

Por essas e por outras a economia do Rio não vai pra frente. São muitos amigos a atender, numa cidade em que todas as engrenagens são movidas dessa maneira, na camaradagem. Reclame de um mau atendimento e vai receber em troca uma porta na cara. Mas experimente levar a incompetência alheia numa boa, não se estressar e criar uma maneira inteligente de o outro achar que pode se dar muito mal se não fizer exatamente o que você deseja... e milagrosamente serão abertas as portas da esperança!

Não que eu torça contra o Rio, longe de mim! E quem já leu outros textos deste blog sabe bem como eu amo essa cidade. Além disso não vamos generalizar, essa é apenas a minha percepção. Também vale dizer que não estou dizendo que a cidade está cheia de preguiçosos. Claro que não! A cidade só está cheia de gente muito mais esperta do que você e eu!

O fato incontestável é que são regras muito particulares as que regem os comportamentos na Cidade Maravilhosa. Regras muitas vezes difíceis de engolir para um mineiro ex-paulistano. São valores distorcidos que existem por todo o país, mas que, no Rio, parecem mais perceptíveis, mais desinibidos e escancarados, são mais sonoros e têm cores mais vibrantes! O melhor e o pior do Brasil, direto da lata.

Em meio à crise financeira internacional, um amigo me pergunta: o que vai acabar primeiro, o Rio de Janeiro ou o capitalismo?

Estou certo de que o Rio, lindo que só ele, acaba primeiro. Infelizmente.

Hollywood. Holliday. Holly Estácio.