11.11.09
A quem interessar possa
22.7.09
Preservar-se
De qualquer forma, esse texto não pretende passear pela ecologia, a não ser que a harmonia psíquica possa ser considerada um ecossistema ameaçado. O tema é a autopreservação como valor quase extinto, como bioma em vias de desaparecer por completo.
Não sei se tem a ver com a chegada dos 30 (ou dos quase 31 anos), mas confesso que estou a cada dia mais rebelde. E entre as bandeiras da rebeldia balzaquiana está um sentimento incontrolável que algum desavisado poderia chamar de puro egoísmo.
Trata-se de uma certeza de que, primeiro, antes de tudo, preciso cuidar de mim. A minha barba precisa estar feita para que eu possa tratar do resto do mundo. Para isso, também é preciso ter me alimentado bem: nesse aspecto, beterrabas e cenouras ganham a relevância de assunto de segurança nacional. Em caso de despressurização, a própria companhia aérea ensina a colocar antes a máscara de oxigênio em si mesmo e só então ajudar outra pessoa.
Dirão os que já tem filhos que isso tudo é porque ainda não sou pai. Tá. Experimente não cuidar de si mesmo para ver quem é que vai cuidar do seu filho.
Será que a idade fez escorrer pelo ralo todo o meu senso de compaixão e solidariedade? Claro que não. O que veio com o tempo foi a descoberta de que é fundamental conhecer os próprios limites.
Não se trata de ser um sujeito limitado, sem calor na alma e sem perspectivas. Os limites individuais estão aí justamente para serem quebrados. Mas alto lá: quebrados por mim mesmo! O pulo do gato é saber quais são os limites para definir exatamente quais deles eu não quero ver ultrapassados pelo vizinho. É só conhecendo os meus limites que posso ser respeitado pelo outro.
A ideia não tem nada a ver com apologia da intransigência. Ceder é, sim, muito importante: é essencial para viver em sociedade, para amar e ser amado, mas é necessário aprender a ceder. Saber onde e quando ceder é mais uma daquelas difíceis lições que a escola não ensina.
Se o fundamental é estar bem consigo mesmo para poder amar o mundo, ser fiel a seus próprios princípios deveria ser a regra número um de qualquer indivíduo. O desafio é colocar isso em prática sem ser teimoso nem turrão. A campanha é esta mesma: autofidelidade já.
Fico me perguntando por que cargas d'água a gente se coloca em tantas enrascadas. Será que a gente precisa mesmo passar por tudo o que passa? Ou será que dá para fazer um filtro e despoluir um pouco? Por que é tão difícil dizer não, mesmo quando estamos diante daquele pedido mais inconveniente? Um sujeito folgado pede um absurdo e quem está do outro lado é obrigado a atender?
E os rancores, as frustrações? Será que não podemos simplesmente reciclar o desgosto? Por que sofremos tanto pelo que já sabemos que vai dar errado? Ou pelo que simplesmente dá errado, mas não depende nem nunca dependeu da gente? Se não havia nada que pudesse ser feito para evitar o desfecho trágico, por que sofrer tanto quando se consuma a tragédia?
O mundo está repleto de especialistas em sofrer porque o outro não fez o que cabia. Também há um amontoado de gente cujo maior medo é pronunciar a palavrinha não. Pedir desculpas e dizer "olha, desta vez não vai dar" não pode ser pior do que se afogar em chatices.
Devo admitir, passei a vida sendo um representante desse grupo. Mas estou aprendendo a me blindar. Tudo começa com pequenas coisas. São exercícios diários. Tá doente? Fique em casa. Fez errado? Volte e refaça. Não está afim? Avalie e, se aguentar o tranco, não faça _mas aprenda a também se comprometer quando preciso.
Desacelerar. Respirar. Repensar. Simplesmente não pensar.
Não se trata de fazer apenas o que dá na telha, sem concessões. Mas é chegada a hora de ser um pouco mais Alberto Caeiro. Um pouco mais zen. Um pouco mais nem. Um pouco mais além.
Não tem nada de revolucionário nisso... ou tem? O tempo das pessoas é agora. Os homens passam, as corporações ficam. Elas vão ficar de qualquer jeito. É por isso que o grande desafio está em fazer essa porção efêmera ser o mais maravilhosa possível.
Parece que ninguém se preocupa em agir para evitar sofrimentos desnecessários. Pois bem, a estratégia agora é sofrer apenas com o que for inevitável.
Pela lógica, isso deve nos deixar com muito mais tempo livre para aproveitar o que realmente importa na vida: o amor, a família, os amigos. À primeira vista, pode parecer uma enorme incoerência, mas só com uma certa dose de individualismo é possível ter uma vida cercada de calor humano. Tá aí, esse era o superaquecimento global que eu queria ver.
A erosão dos sentimentos é um processo bem mais rápido do que parece. Os amores, desprotegidos e desmatados, podem se desintegrar na rotina.
Faça sua parte. Não sacrifique sua alma.
Preserve a sua natureza.
4.6.09
Porre de pão de queijo
25.3.09
Tinha uma amora no meio do caminho
10.3.09
Ensaio sobre o estrabismo
O que pode ser supersexy pra mim pode ser a coisa mais mais corta-clima pra você. E, depois, porque o mais bonito é amar alguém por inteiro. O ideal não é amar alguém apesar de seus defeitos, o paraíso de fato é amar alguém justamente por causa de seus defeitos.
Mas eu garanto que não é nada disso. Eu, por exemplo, sou um otimista: se falo que falta algo, é porque acredito no mundo e o amo tanto que acho que vale a pena gastar saliva para melhorá-lo.
Imagine. Essa, sim, é a perfeição absoluta. A certeza, serena, de que aqueles defeitos você pode suportar. Trata-se de uma garantia de amor incondicional e duradouro.
OK, aceitemos, pode também ser um dentinho torto. Se possível, encavalado. Mas só um. Não serve a arcada inteira.
O amigo é exigente. E o controle de qualidade passa, veja só, até pela feiura. Doses homeopáticas de feiura sob medida - e ele chama isso de "charme".
Ah, mas que mal há nisso? O que importa é olhar pra alguém e sentir essa certeza - estranha e doce - de que tudo está exatamente no seu devido lugar.
Fico pensando se não é por isso que eu amo tanto o Rio. E justamente porque amo, vejo (e aponto) tão virginianamente os defeitos da cidade. Me perguntaram outro dia: "Você gosta mesmo do Rio?! Você só fala mal da cidade!"
Ai, Deus, como explicar que, se não amasse, não falaria. Não reclamaria. Não perderia o meu tempo tentando entender, tentando sugerir melhorias. O mesmo problema eu tenho no amor. No amor a dois, quero dizer. Eu sempre enxergo os cílios fora do lugar, as roupas amassadas, as unhas malfeitas. E amo apesar disso, amo também por isso. Talvez exatamente por isso.
Um ou outro pode dizer que o estrábico sou eu. Sou eu quem tem a visão turva, que enxergo torto, vendo problema em todo lado. Mas "ojo", como dizem os argentinos, não são problemas!
Um amor verdadeiro é um pé de moleque, não o doce, mas o do menino que não tem medo de pisar onde quer que seja preciso. Quer coisa mais linda do que avistar uma poça d'água no caminho, encará-la, e depois pisar bem no meio dela, de propósito, por puro prazer?
5.11.08
O que Lula ensina sobre Obama
Discurso de Barack Obama em Chicago, logo após o anúncio do resultado da eleição If there is anyone out there who still doubts that America is a place where all things are possible; who still wonders if the dream of our founders is alive in our time; who still questions the power of our democracy, tonight is your answer. It’s the answer told by lines that stretched around schools and churches in numbers this nation has never seen; by people who waited three hours and four hours, many for the very first time in their lives, because they believed that this time must be different; that their voice could be that difference. It’s the answer spoken by young and old, rich and poor, Democrat and Republican, black, white, Latino, Asian, Native American, gay, straight, disabled and not disabled – Americans who sent a message to the world that we have never been a collection of Red States and Blue States: we are, and always will be, the United States of America. It’s the answer that led those who have been told for so long by so many to be cynical, and fearful, and doubtful of what we can achieve to put their hands on the arc of history and bend it once more toward the hope of a better day. It’s been a long time coming, but tonight, because of what we did on this day, in this election, at this defining moment, change has come to America. I just received a very gracious call from Senator McCain. He fought long and hard in this campaign, and he’s fought even longer and harder for the country he loves. He has endured sacrifices for America that most of us cannot begin to imagine, and we are better off for the service rendered by this brave and selfless leader. I congratulate him and Governor Palin for all they have achieved, and I look forward to working with them to renew this nation’s promise in the months ahead. I want to thank my partner in this journey, a man who campaigned from his heart and spoke for the men and women he grew up with on the streets of Scranton and rode with on that train home to Delaware, the Vice President-elect of the United States, Joe Biden. I would not be standing here tonight without the unyielding support of my best friend for the last sixteen years, the rock of our family and the love of my life, our nation’s next First Lady, Michelle Obama. Sasha and Malia, I love you both so much, and you have earned the new puppy that’s coming with us to the White House. And while she’s no longer with us, I know my grandmother is watching, along with the family that made me who I am. I miss them tonight, and know that my debt to them is beyond measure. To my campaign manager David Plouffe, my chief strategist David Axelrod, and the best campaign team ever assembled in the history of politics – you made this happen, and I am forever grateful for what you’ve sacrificed to get it done. But above all, I will never forget who this victory truly belongs to – it belongs to you. I was never the likeliest candidate for this office. We didn’t start with much money or many endorsements. Our campaign was not hatched in the halls of Washington – it began in the backyards of Des Moines and the living rooms of Concord and the front porches of Charleston. It was built by working men and women who dug into what little savings they had to give five dollars and ten dollars and twenty dollars to this cause. It grew strength from the young people who rejected the myth of their generation’s apathy; who left their homes and their families for jobs that offered little pay and less sleep; from the not-so-young people who braved the bitter cold and scorching heat to knock on the doors of perfect strangers; from the millions of Americans who volunteered, and organized, and proved that more than two centuries later, a government of the people, by the people and for the people has not perished from this Earth. This is your victory. I know you didn’t do this just to win an election and I know you didn’t do it for me. You did it because you understand the enormity of the task that lies ahead. For even as we celebrate tonight, we know the challenges that tomorrow will bring are the greatest of our lifetime – two wars, a planet in peril, the worst financial crisis in a century. Even as we stand here tonight, we know there are brave Americans waking up in the deserts of Iraq and the mountains of Afghanistan to risk their lives for us. There are mothers and fathers who will lie awake after their children fall asleep and wonder how they’ll make the mortgage, or pay their doctor’s bills, or save enough for college. There is new energy to harness and new jobs to be created; new schools to build and threats to meet and alliances to repair. The road ahead will be long. Our climb will be steep. We may not get there in one year or even one term, but America – I have never been more hopeful than I am tonight that we will get there. I promise you – we as a people will get there. There will be setbacks and false starts. There are many who won’t agree with every decision or policy I make as President, and we know that government can’t solve every problem. But I will always be honest with you about the challenges we face. I will listen to you, especially when we disagree. And above all, I will ask you join in the work of remaking this nation the only way it’s been done in America for two-hundred and twenty-one years – block by block, brick by brick, calloused hand by calloused hand. What began twenty-one months ago in the depths of winter must not end on this autumn night. This victory alone is not the change we seek – it is only the chance for us to make that change. And that cannot happen if we go back to the way things were. It cannot happen without you. So let us summon a new spirit of patriotism; of service and responsibility where each of us resolves to pitch in and work harder and look after not only ourselves, but each other. Let us remember that if this financial crisis taught us anything, it’s that we cannot have a thriving Wall Street while Main Street suffers – in this country, we rise or fall as one nation; as one people. Let us resist the temptation to fall back on the same partisanship and pettiness and immaturity that has poisoned our politics for so long. Let us remember that it was a man from this state who first carried the banner of the Republican Party to the White House – a party founded on the values of self-reliance, individual liberty, and national unity. Those are values we all share, and while the Democratic Party has won a great victory tonight, we do so with a measure of humility and determination to heal the divides that have held back our progress. As Lincoln said to a nation far more divided than ours, “We are not enemies, but friends…though passion may have strained it must not break our bonds of affection.” And to those Americans whose support I have yet to earn – I may not have won your vote, but I hear your voices, I need your help, and I will be your President too. And to all those watching tonight from beyond our shores, from parliaments and palaces to those who are huddled around radios in the forgotten corners of our world – our stories are singular, but our destiny is shared, and a new dawn of American leadership is at hand. To those who would tear this world down – we will defeat you. To those who seek peace and security – we support you. And to all those who have wondered if America’s beacon still burns as bright – tonight we proved once more that the true strength of our nation comes not from our the might of our arms or the scale of our wealth, but from the enduring power of our ideals: democracy, liberty, opportunity, and unyielding hope. For that is the true genius of America – that America can change. Our union can be perfected. And what we have already achieved gives us hope for what we can and must achieve tomorrow. This election had many firsts and many stories that will be told for generations. But one that’s on my mind tonight is about a woman who cast her ballot in Atlanta. She’s a lot like the millions of others who stood in line to make their voice heard in this election except for one thing – Ann Nixon Cooper is 106 years old. She was born just a generation past slavery; a time when there were no cars on the road or planes in the sky; when someone like her couldn’t vote for two reasons – because she was a woman and because of the color of her skin. And tonight, I think about all that she’s seen throughout her century in America – the heartache and the hope; the struggle and the progress; the times we were told that we can’t, and the people who pressed on with that American creed: Yes we can. At a time when women’s voices were silenced and their hopes dismissed, she lived to see them stand up and speak out and reach for the ballot. Yes we can. When there was despair in the dust bowl and depression across the land, she saw a nation conquer fear itself with a New Deal, new jobs and a new sense of common purpose. Yes we can. When the bombs fell on our harbor and tyranny threatened the world, she was there to witness a generation rise to greatness and a democracy was saved. Yes we can. She was there for the buses in Montgomery, the hoses in Birmingham, a bridge in Selma, and a preacher from Atlanta who told a people that “We Shall Overcome.” Yes we can. A man touched down on the moon, a wall came down in Berlin, a world was connected by our own science and imagination. And this year, in this election, she touched her finger to a screen, and cast her vote, because after 106 years in America, through the best of times and the darkest of hours, she knows how America can change. Yes we can. America, we have come so far. We have seen so much. But there is so much more to do. So tonight, let us ask ourselves – if our children should live to see the next century; if my daughters should be so lucky to live as long as Ann Nixon Cooper, what change will they see? What progress will we have made? This is our chance to answer that call. This is our moment. This is our time – to put our people back to work and open doors of opportunity for our kids; to restore prosperity and promote the cause of peace; to reclaim the American Dream and reaffirm that fundamental truth – that out of many, we are one; that while we breathe, we hope, and where we are met with cynicism, and doubt, and those who tell us that we can’t, we will respond with that timeless creed that sums up the spirit of a people: Yes We Can. Thank you, God bless you, and may God Bless the United States of America. Chicago, November 5th.
| Discurso de Lula em São Paulo, logo após o anúncio do resultado das eleições em 2002 Ontem, o Brasil votou para mudar. A esperança venceu o medo e o eleitorado decidiu por um novo caminho para o país. Foi um belo espetáculo democrático que demos ao mundo. Um dos maiores povos do planeta resolveu, de modo pacífico e tranqüilo, traçar um rumo diferente para si. As eleições que acabamos de realizar foram, acima de tudo, uma vitória da sociedade brasileira e de suas instituições democráticas, uma vez que elas trouxeram a alternância no poder, sem a qual a democracia perde a sua essência. Tivemos um processo eleitoral de excelente qualidade, no qual os cidadãos e as cidadãs exigiram e obtiveram um debate limpo, franco e qualificado sobre os desafios imediatos e históricos do nosso país. Contribuíram para isso a atitude da justiça eleitoral e do presidente da República, que cumpriram de maneira equilibrada o seu papel constitucional. A grande virtude da democracia é que ela permite ao povo mudar de horizonte quando ele acha necessário. A nossa vitória significa a escolha de um projeto alternativo e o início de um novo ciclo histórico para o Brasil. A nossa chegada à Presidência da República é fruto de um vasto esforço coletivo, realizado, ao longo de décadas, por inúmeros democratas e lutadores sociais. Muitos dos quais, infelizmente, não puderam ver a sociedade brasileira, e em especial as camadas oprimidas, colherem os frutos de seu árduo trabalho, de sua dedicação e sacrifício militante. Estejam onde estiverem, os companheiros e as companheiras que a morte colheu antes desta hora, saibam que somos herdeiros e portadores do seu legado de dignidade humana, de integridade pessoal, de amor pelo Brasil, e de paixão pela justiça. Saibam que a obra de vocês segue conosco, como se vivos estivessem, e é fonte de inspiração para nós que seguimos travando o bom combate. O combate em favor dos excluídos e dos discriminados. O combate em favor dos desamparados, dos humilhados e dos ofendidos. Quero homenagear aqui os militantes anônimos. Aqueles que deram seu trabalho e dedicação, ao longo de todos esses anos, para que chegássemos aonde chegamos. Nas mais longínquas regiões do país, eles jamais esmoreceram. Aprenderam, como eu, com as derrotas. Tornaram-se mais competentes e eficazes na defesa de um país soberano e justo. Celebro hoje aqueles que, nos momentos difíceis do passado, quando a nossa causa de um país justo e solidário parecia inviável, não caíram na tentação da indiferença, não cederam ao egoísmo e ao individualismo exacerbado. Todos aqueles que conservaram intacta a sua capacidade de indignar-se perante o sofrimento alheio. Souberam resistir, mantendo acesa a chama da solidariedade social. Todos aqueles que não desertaram do nosso sonho, que às vezes sozinhos nas praças deste imenso Brasil ergueram bem alto a bandeira estrelada da esperança. Mas esta vitória é, sobretudo, de milhares, quem sabe milhões, de pessoas sem filiação partidária que se engajaram nessa causa. É uma conquista das classes populares, das classes médias, de parcelas importantes do empresariado, dos movimentos sociais e das entidades sindicais que compreenderam a necessidade de combater a pobreza e defender o interesse nacional. Para alcançar o resultado de ontem, foi fundamental que o PT, um partido de esquerda, tenha sabido construir uma ampla aliança com outras forças partidárias. O PL, o PCdoB, o PMN e o PCB deram uma contribuição inestimável desde o primeiro turno. A eles, vieram somar-se, no segundo turno, o PSB, o PPS, o PDT, o PV, o PTB, o PHS, o PSDC e o PGT. Além disso, ao longo da campanha, contamos com o apoio de setores importantes de outros partidos identificados com o nosso programa de mudanças para o Brasil. Em especial, quero destacar o apoio dos ex-presidentes José Sarney e Itamar Franco e, no segundo turno, o precioso apoio que recebi de Anthony Garotinho e Ciro Gomes. Não há dúvida de que a maioria da sociedade votou pela adoção de outro ideal de país, em que todos tenham os seus direitos básicos assegurados. A maioria da sociedade brasileira votou pela adoção de outro modelo econômico e social, capaz de assegurar a retomada do crescimento, do desenvolvimento econômico com geração de emprego e distribuição de renda. O povo brasileiro sabe, entretanto, que aquilo que se desfez ou se deixou de fazer na última década não pode ser resolvido num passe de mágica. Assim como carências históricas da população trabalhadora não podem ser superadas da noite para o dia. Não há solução milagrosa para tamanha dívida social, agravada no último período. Mas é possível e necessário começar, desde o primeiro dia de governo. Vamos enfrentar a atual vulnerabilidade externa da economia brasileira fator crucial na turbulência financeira dos últimos meses de forma segura. Como dissemos na campanha, nosso governo vai honrar os contratos estabelecidos pelo governo, não vai descuidar do controle da inflação e manterá como sempre ocorreu nos governos do PT uma postura de responsabilidade fiscal. Essa é a razão para dizer com clareza a todos os brasileiros: a dura travessia que o Brasil estará enfrentando exigirá austeridade no uso do dinheiro público e combate implacável à corrupção. Mas mesmo com as restrições orçamentárias, impostas pela difícil situação financeira que vamos herdar, estamos convencidos que, desde o primeiro dia da nova gestão, é possível agir com criatividade e determinação na área social. Vamos aplacar a fome, gerar empregos, atacar o crime, combater a corrupção e criar melhores condições de estudo para a população de baixa renda desde o momento inicial de meu governo. Meu primeiro ano de mandato terá o selo do combate à fome. Um apelo à solidariedade para com os brasileiros que não têm o que comer. Para tanto, anuncio a criação de uma Secretaria de Emergência Social, com verbas e poderes para iniciar, já em janeiro, o combate ao flagelo da fome. Estou seguro de que esse é, hoje, o clamor mais forte do conjunto da sociedade. Se ao final do meu mandato, cada brasileiro puder se alimentar três vezes ao dia, terei realizado a missão de minha vida. Como disse ao lançar meu Programa de Governo, gerar empregos será minha obsessão. Para tanto, vamos mobilizar imediatamente os recursos públicos disponíveis nos bancos oficiais e nas parcerias com a iniciativa privada para a ativação do setor da construção civil e das obras de saneamento. Além de gerar empregos, tal medida ajudará à retomada gradual do crescimento sustentado. O país tem acompanhado com preocupação a crise financeira internacional e suas implicações na situação brasileira. Em especial, a instabilidade na taxa de câmbio e a pressão inflacionária dela decorrente. Porém, com toda a adversidade internacional, estamos com superávit comercial de mais de 10 bilhões de dólares neste ano. Resultado que pode ser ampliado já em 2003 com uma política ofensiva de exportações, incorporando mais valor agregado aos nossos produtos, aprofundando a competitividade da nossa economia, bem como promovendo uma criteriosa política de substituição competitiva de importações. O Brasil fará a sua parte para superar a crise, mas é essencial que além do apoio de organismos multilaterais, como o FMI, o BID e o BIRD, se restabeleçam as linhas de financiamento para as empresas e para o comércio internacional. Igualmente relevante é avançar nas negociações comerciais internacionais, nas quais os países ricos efetivamente retirem as barreiras protecionistas e os subsídios que penalizam as nossas exportações, principalmente na agricultura. Nos últimos três anos, com o fim da âncora cambial, aumentamos em mais de 20 milhões de toneladas a nossa safra agrícola. Temos imenso potencial nesse setor para desencadear um amplo programa de combate à fome e exportarmos alimentos que continuam encontrando no protecionismo injusto das grandes potências econômicas um obstáculo que não pouparemos esforços para remover. O trabalho é o caminho de nosso desenvolvimento, da superação dessa herança histórica de desigualdade e exclusão social. Queremos constituir um amplo mercado de consumo de massas que dê segurança aos investimentos das empresas, atraia investimentos produtivos internacionais e represente um novo modelo de desenvolvimento e compatibilize distribuição de renda e crescimento econômico. A construção dessa nova perspectiva de crescimento sustentado e de geração de emprego exigirá a ampliação e o barateamento do crédito, o fomento ao mercado de capitais e um cuidadoso investimento em ciência e tecnologia. Exigirá também uma inversão de prioridades no financiamento e no gasto público, valorizando a agricultura familiar, o cooperativismo, as micro e pequenas empresas e as diversas formas de economia solidária. O Congresso Nacional tem uma imensa responsabilidade na construção dessas mudanças que irão promover a inclusão social e o crescimento sustentado. Por isso, estarei pessoalmente empenhado em encaminhar para o Congresso as grandes reformas que a sociedade reclama: a reforma da previdência social, a reforma tributária, a reforma da legislação trabalhista e da estrutura sindical, a reforma agrária e a reforma política. O mundo está atento a esta demonstração espetacular de democracia e participação popular ocorrida na eleição de ontem. É uma boa hora para reafirmar um compromisso de defesa corajosa de nossa soberania regional. E o faremos buscando construir uma cultura de paz entre as nações, aprofundando a integração econômica e comercial entre os países, resgatando e ampliando o Mercosul como instrumento de integração nacional e implementando uma negociação soberana frente à proposta da ALCA. Vamos fomentar os acordos comerciais bilaterais e lutar para que uma nova ordem econômica internacional diminua as injustiças, a distância crescente entre países ricos e pobres, bem como a instabilidade financeira internacional que tantos prejuízos tem imposto aos países em desenvolvimento. Nosso governo será um guardião da Amazônia e da sua biodiversidade. Nosso programa de desenvolvimento, em especial para essa região, será marcada pela responsabilidade ambiental. Queremos impulsionar todas as formas de integração da América Latina que fortaleçam a nossa identidade histórica, social e cultural. Particularmente relevante é buscar parcerias que permitam um combate implacável ao narcotráfico que alicia uma parte da juventude e alimenta o crime organizado. Nosso governo respeitará e procurará fortalecer os organismos internacionais, em particular a ONU e os acordos internacionais relevantes, como o protocolo de Kyoto, e o Tribunal Penal Internacional, bem como os acordos de não proliferação de armas nucleares e químicas. Estimularemos a idéia de uma globalização solidária e humanista, na qual os povos dos países pobres possam reverter essa estrutura internacional injusta e excludente. Não vou decepcionar o povo brasileiro. A manifestação que brotou ontem do fundo da alma dos meus compatriotas será a minha a inspiração e a minha bússola. Serei, a partir de 1º de janeiro, o presidente de todos os brasileiros e brasileiras, porque sei que é isso que esperam os eleitores que me confiaram o seu voto. Vivemos um momento decisivo e único para as mudanças que todos desejamos. Elas virão sem surpresas e sobressaltos. Meu governo terá a marca do entendimento e da negociação. Da firmeza e da paciência. Temos plena consciência que a grandeza dessa tarefa supera os limites de um partido. Esse foi o sentido do esforço que fizemos desde a campanha para reunir sindicalistas, ONGs e empresários de todos os segmentos numa ação comum pelo país. Continuaremos a ter atuação decidida no sentido de unir as diversas forças políticas e sociais para construir uma nação que beneficie o conjunto do povo. Vamos promover um Pacto Nacional pelo Brasil, formalizar o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, e escolher os melhores quadros do Brasil para fazer parte de um governo amplo, que permita iniciar o resgate das dívidas sociais seculares. Isso não se fará sem a ativa participação de todas as forças vivas do Brasil, trabalhadores e empresários, homens e mulheres de bem. Meu coração bate forte. Sei que estou sintonizado com a esperança de milhões e milhões de outros corações. Estou otimista. Sinto que um novo Brasil está nascendo. São Paulo, 28 de outubro de 2002" |
21.10.08
A voz do morro
7.10.08
Hollywood é aqui
10.8.08
Iraci é a maior piranha do bairro

Tirei dinheiro do caixa eletrônico e assim me chegou a informação, escrita em uma nota de R$ 10 (com arara e tudo): "Iraci é a maior piranha do Bairro S. Sebastião."
A nota saiu do caixa exatamente assim (foto), mensagem viradinha pra mim. Oferecidíssima.
Claro que dei risada no primeiro momento. Olhei ao redor pra ver se alguém compartilhava do meu sorriso, mas não, a fila do caixa queria andar. E a fila andou.
Iraci, pobre Iraci. Que mal deve ter feito para merecer tamanha afronta?
"Não deve ser uma piranha qualquer", me disse um conhecido. Não deve ser mesmo, fiquei pensando, pois pra estar em uma nota de dez reais é preciso mesmo muita animação. É preciso disposição para passar pelas mãos de todo mundo! Agüentar o movimento de uma nota de cem é fácil, quero ver é manter o rebolado mudando de mão de cinco em cinco minutos.
Tentei passá-la adiante logo nos primeiros dias, mas a idéia de fotografar a nota e escrever uma besteira qualquer sobre ela me fez ter certos cuidados. Ela ficava num cantinho específico do bolso, para que eu não cometesse o lamentável engano de trocá-la por uma guloseima sem importância.
Duas ou três vezes me peguei no pulo, prestes a entregá-la de mão beijada, mas felizmente me dei conta e pude evitar o pior. Uma vez saí de casa de madrugada para sacar dinheiro só para não ter de me separar dela. Iraci havia se apegado a mim. Ou eu a ela.
Coisa de adolescente se apaixonar por piranha. Não que eu já tenha provado; a verdade é que sexo pago é contra os meus princípios, não os da ética, mas os do tesão mesmo. Boa parte da delícia da transa está justamente em a outra pessoa QUERER estar com você! É por isso que acho que pagar por sexo é a coisa mais sem graça do mundo _ainda mais num mundo em que sexo gostoso e voluntário não é propriamente difícil de encontrar.
Enfim, mas a Iraci, claro, não deve ser uma puta profissional. Bom, pode até ser, na acepção paulistana, em que uma médica, dentista ou advogada pode ser uma puta profissional. É que simplesmente não faria sentido jogar na lama (ou no dinheiro, que é bem mais sujo que a lama) o nome de alguém que fosse prostituta de verdade.
A história me cheira a injúria das mais baixas, injúria mesmo, só pra ofender, sem exceção da verdade, seja ela mulher fácil ou não. Mas não façamos juízo de valor.
Fico pensando se foi coisa de homem. O cara foi lá, comeu a gostosa da Iraci, bebeu umas biritas e mandou essa. Ou de marido corno, traído pela mesma Iraci que julgava pacata, a quem jurou fidelidade eterna e, bom, teve aquela vez depois do expediente, mas isso não vem ao caso e não justifica a vadia sair por aí dando pra todo mundo. Ainda mais pintada de carmim!
Se bem que pode ter sido coisa de mulher. De vizinha invejosa. Da mulher que se revolta contra a amante fogosa do marido: "Ela vai ver só, eu boto aqui o nome dessa sem-vergonha, e todo mundo vai saber". Só que, além de ser feio danificar nosso querido Real, se a idéia é prejudicar alguém, deve ser mais útil amarrar o nome da figura na boca do sapo.
É que, depois de circular e circular, o bairro São Sebastião ficou pequeno pra ela. No Jardim Botânico, Rio de Janeiro, onde ela veio toda saidinha pro meu lado, ninguém saberia medir sua fama. Ela era apenas mais uma. E, sendo assim, a ofensa perde o sentido.
Na nota, Iraci ganhou a liberdade que talvez não tivesse na vidinha besta de todo dia. Ganhou o mundo, viajou pelas mãos de homens (e mulheres, por que não?) de diferentes classes e estilos. A própria mensagem dá conta dessa limitação. Ela é sim, a maior das piranhas, mas do bairro, daquele contexto fechado. Na nota, não, ela passou a poder ser a piranha de todo mundo!
Vale dizer que o bairro São Sebastião pode nem ser no Rio! A Iraci pode ter viajado, toda faceira, de Porto Alegre para cá. Ou quem sabe de Cuiabá. De Maceió, talvez. Anápolis (GO), Criciúma (SC), Poços de Caldas (MG) também possuem bairros com esse nome. Isso pra ficarmos só nas primeiras páginas da busca do Google.
Não chego ao nível de loucura de sugerir que Iraci deva estar agradecida por estar tão livre e viajada. Até porque quem pretendia ofender a honra da moça julgou que ela só valia isso, dez reais, o que, hoje em dia, é o mesmo que nada. O que é que se compra com dez reais? Bom, no máximo uma Iraci e olhe lá.
Isso me leva a um questionamento pouco oportuno: por onde andam as notas de dez reais de plástico? Está cada vez mais raro dar de cara com uma. Vai ver é mais fácil a Iraci ir parar aí na sua mão que você receber outra vez aquela estranha nota de plástico.
Pois outro dia peguei um táxi com um sujeito falastrão, que veio me contando todo o tempo sobre suas aventuras sexuais. Mas o que trouxe verossimilhança aos "causos" foi justamente o taxista admitir que, no ponto (de táxi) a que pertencia, ele tinha a vida sexual mais monótona. Meio do trajeto, e toca o celular do motorista. Ele atende e solta uma gargalhada. Do outro lado da linha, assim me relatou o taxista em seguida, estava um colega de praça que tinha terminado uma corrida mais precisamente na cama da cliente.
Para explicar o episódio, o taxista soltou um discurso, digamos, praticamente feminista:
- É uma dessas peruas da Barra da Tijuca, cheia da nota. E casada! O marido só pensa em trabalhar, trabalhar. Enche os burros de dinheiro, mas não comparece. E a mulher tá certa. Tem que dar mesmo. Trepar é bom. Por que é que ela vai se privar? Gente, mulher também tem direito de gozar. E a mulherada tá fazendo o quê? Tá dando!
Achei que ele merecia a Iraci. Paguei com ela o táxi.
E Iraci, cada vez mais rodada, seguiu seu destino.
13.5.08
Duas caras
Também não quero falar de falsidade. Dizer que o mundo está cheio de gente falsa é puro clichê, isso todo mundo sabe. A parte digna de nota é justamente o oposto: a parcela verdadeiríssima de nós mesmos.
A maior das verdades é que ninguém é uma coisa só o tempo todo. Graças a Deus somos personagens redondos, complexos, com duas, três, duzentas facetas diferentes.
Isso faz cair por terra o conceito mais básico de falsidade, deixa o seriado de nossas vidas mil vezes mais interessante e tem o maravilhoso efeito colateral de impedir que você desenvolva ódio mortal por qualquer outro ser vivo. É sempre possível pensar que a pessoa está sendo fiel ao que ela sente e pensa _naquele momento.
Seria muito descaramento da minha parte exigir de qualquer um que fosse um nível de certeza e discernimento que eu próprio nunca demonstrei na minha vida.
É como querer um dia queijo branco e no outro queijo amarelo. É como achar que encontrou o amor da sua vida e descobrir que não, que era só mais um engano. Dá pra ter raiva de alguém que sinceramente tentou e que descobriu que não estava lá a sua felicidade?
É como se recusar a crer que boa parte do que chamamos de cereja não passa de mamão.
Tudo tem pelo menos dois lados, duas caras, duas faces da mesma monedita.
- Una monedita, por favor...
O apelo melódico e melancólico é do mendigo boliviano (ou argentino, ou paraguaio, ou...), mas a verdade é que o desejo nunca é realmente de apenas uma única moeda. Bem, se o mendigo for espanhol, pode até ser, no máximo, de uma moeda única.
Uma amiga, no Ceará, tirou do bolso uma moeda e a entregou a um velhinho que se aproximou dela e de uma colega. O velhinho _sujo e quase maltrapilho_ não era mendigo, era o avô da colega.
Na Índia, uma menina nasceu com duas caras. Duas faces. Quatro olhos (que piscam juntos), dois narizes, duas bocas. E o mais interessante é que, ao invés de ser tratada como aberração, de sofrer preconceito, de ser rejeitada pelas pessoas, a bebezinha é venerada como deusa!
As pessoas acreditam que tocá-la traz boa sorte e que a menina é uma bênção, um milagre, a reencarnação de um espírito de luz. Parece nem passar pela cabeça de ninguém que a menina seja deficiente.
Mas o mais curioso nem é isso. O melhor de tudo é que a mãe esconde o próprio rosto e exibe o da filha! Veja.
Não quero fazer um post cabeça com moral da história ao estilo "respeite as diferenças". Também não quero adotar o discurso de que tudo tem um lado bom. Longe de mim abraçar uma causa Polyanna! Nada disso. Mas essa notícia me fez pensar que tudo na vida permite pelo menos um olhar a mais. Uma perspectivazinha diferente que seja.
O texto veio logo na cabeça, mas não escrevi antes porque estava ocupado em sofrer um pouco. Lamentar meus erros. Lamentar ser tão intenso às vezes. Faz parte.
No fim, concluí, de novo, outra vez e uma vez mais, que não há como não ser intenso em todos os sentidos. Não há por que não ser! Na pior das hipóteses, creio eu, isso facilita as coisas e agiliza processos e desencontros que já estavam fadados a ocorrer e que, no máximo, poderiam levar alguns dias a mais para tomarem corpo. Sigo duvidando de que faria alguma diferença no final.
Mas é óbvio que deve existir uma maneira completamente diferente (talvez oposta pelo vértice) de enxergar tudo isso. Um jeito antagônico de ver essa mesmíssima coisa.
Na escola, oitava série, uma colega de classe ganhou da professora sem nenhuma didática o "Troféu Tijolo" (que era concedido aos asnos de plantão) por ter dito a seguinte "asneira" ao responder a uma pergunta durante uma apresentação à turma: "É exatamente a mesma coisa, só que tem uma diferença."
Não era asneira coisíssima nenhuma. Ela era uma visionária. E ainda levou o troféu.